| SCRIPT - por Sandra Teschner |
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"Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar"
(Espelho, João Nogueira) |
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Diogo Nogueira é mais do que uma capa, é a mágica que abraça este momento. Por isso, renuncio ao direito e obrigação deintroduzir a revista de bolsa dando uma geral de como você vai se encontrar nela:e peço licença para isso, caro leitor profashional.
Mas a causa aqui é nobre. Provavelmente, nem o jovem cantor e compositor se deu conta do papel que ele está tendo nesta edição. Entrevista para uma revista bacana de moda, comportamento, amizade, despretensão, beleza e o “tempo vai”.Então vou contar até para o “moço” que isso aqui é meu jeito de expirar a inspiração que ele provoca.
Trocadilho tem a ver com samba, então fica. “Não, ninguém faz samba só porque prefere. Força nenhuma no mundo interfere sobre o poder da criação. (...) Não, ela é uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente. Que acende a mente e o coração, e faz pensar que existe uma força maior que nos guia. (...) E o poeta se deixa levar por essa magia.” O poder da criação de autoria do “gigante” mestre, pai de Diogo, foi a primeira música que o ouvi cantar e, como conto na matéria da capa na página 40, fui introduzida ao mundo que inclui esse rapaz por meio do meu irmão André, maratonista e vencedor de grandes batalhas na vida, o que conferiu àquele instante mágico em Salvador um poder, a tal da força maior
que nos guia.
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Ouvi-lo é imaginar um mundo na linhagem mais antiga e até naïf de um samba Brasil, que emocionava a alma e refletia nos nossos pés que sambando explodiam as sensações mais loucas que o ritmo nos traz. Lembro-me das lavagens de igreja no interior da Bahia, em especial, na cidade de Santa Inês, local de origem de meus pais, e de como era maravilhoso ouvir aquele samba na rua ou no café do “Jãozinho” (sim, assim mesmo, parece que a gente come propositalmente umas letras no baianês do interior). Vê-lo é transportar para o agora o cheiro de talco da infância com um novo perfume, com assinatura própria, mas sem negar (longe disso!) as raízes. “Eu fui abraçado com a benção que mamãe rogou, na boca o gosto do doce que a vó cozinhou, ganhei no sangue um toque de azul, nos dedos, leveza e inspiração, pra compor meu destino, vou que vou”, compôs o Beto Filho e nosso moço do samba canta com maestria me deixando com saudade do doce de leite de minha avó Conceição, a quem a vida me presenteou com o poder de repetir muitas vezes essa experiência, que, porém, é cada vez única nos seus 94 anos de vida dentre os quais ela partilhou de todos os meus anos. O espelho é o elemento central na peça “Entre quatro paredes de Sartre” (que eu já citei aqui muitas vezes), em que o inferno é caracterizado por se ter em um ambiente fechado três pessoas “condenadas” a conviverem sem o direito de terem seus hábitos cotidianos, e pela ausência do elemento Espelho. Tudo o que se tem é você visto pelo olho do outro. O inferno consiste então em olhar e só poder se enxergar através dos olhos dos outros. Se o maior medo do João Nogueira era o espelho se quebrar, e se este sentimento perpassa ao Diogo que canta quase doloridamente a possível quebra do Espelho, ressalto que terão nos nossos olhos o reflexo do que querem sentir perpetuado. “O escoamento interno do universo”, que é o ser visto no existencialismo sartriano, com certeza não se aplica à musicalidade e propriedade da palavra da família Nogueira. “Se houvesse uma única alma para afirmar (...) que eu tenho coragem, que eu sou digno, acho que estaria salvo” (diz o personagem Garcin na peça citada). “E o povo clamando para o samba não morrer... sambista de fato não deixa esmorecer, bate no peito com raça e dignidade”. A imagem fica refletida no espelho dos nossos olhos. E nos olhos do povo, o espelho não quebra. Vencer é também ficar confortável com o que a gente vê de nós nos olhos do outro. De vitória, esta Profashional também conta muito.
“Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai
...
Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai
...
Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai”
Visões no tempo da vida da música Espelho
Delicie-se a vida conosco!!
Um grande e verdadeiro
abraço.
Sandra Teschner - Publisher
sandra@revistaprofashional.com.br
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