revista profashional

Para Pensar - Edição 86+87 - por Julia Moraes

Minha pele, minha verdade

 

Ostentar uma tatuagem, décadas atrás, era sinônimo de pessoas à margem da sociedade. Ainda bem que os estigmas passam e as virtudes se sobressaem em meio a um mar de divagações que, em muitos casos, eram erroneamente preconcebidas. Nestas páginas, mostramos quem tem, mostra e se orgulha de suas histórias na pele feitas para escrever novos tempos.

Encarar a “maquininha de tatuagem” por algumas horas não é uma das tarefas mais fáceis. Coragem, certezas, desejos e confirmações estão em jogo nesse simbólico e ancestral ato que é se tatuar.
Para alguns, é um rito de passagem a uma nova fase de vida, como a chegada de filhos. Também pode ser uma aliança amorosa ou de amizade, um pensamento que se torna constante e que merece ser eternizado, uma crença, um lifestyle, ou um “signo” que remeta a uma tribo e/ou a outros com os quais a pessoa se identifica.
Em verdade, a história da tatuagem no Brasil é datada de meados dos anos de 1960, com a chegada de um tatuador dinamarquês conhecido como Lucky, que propagou o seu trabalho no cais de Santos, apaixonado por seus personagens pitorescos: marinheiros, prostitutas e foras da lei, e que, eventualmente e obviamente (dada à época), disseminou por longo tempo o preconceito pela arte e por quem a ostentava.

De lá para cá, muita coisa mudou, muitas canções foram escritas e cantadas aos quatro cantos do planeta, como a sensacional “Tatuagem” de Chico Buarque em parceria com Ruy Guerra, que diz “Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é prá te dar coragem prá seguir viagem, quando a noite vem...”.
Poesias à parte e com toda a poesia possível, quem nunca quis, em seu corpo, um desenho que traduzisse o seu momento, que atire a primeira pedra.
Algumas imagens falam por si só e há desenhos que declaram muito mais do que imaginamos sobre a nossa personalidade.
Conheça depoimentos de profissionais que se orgulham de suas escolhas e pretendem continuar a “escrever” novas imagens em seus corpos, por longo tempo.  

Box depoimentos
Flávia Tegão, gerente de MKT, Shopping Tatuapé
Fiz minha primeira tatuagem aos 20 anos e tenho sete desenhos. Acredito que todas as tatuagens precisam ter um significado específico, contar uma história particular. Observo que vivemos numa época de banalização e de pessoas que fazem tatuagens por fazer, o que é uma pena.
Nos meus desenhos, busco elementos que tenham a ver com a minha personalidade, como: símbolos, gatos, estrelas (as minhas simbolizam minhas irmãs e eu) e caveiras, que aliás adoro e não as relaciono com o fim e sim com um recomeço, somos isso por dentro.
Acho que em áreas mais “sérias” ainda existe o preconceito, em menor escala, mas ele está lá, talvez, alguma herança histórica de tempos em que não eram compreendidas pela sociedade. Gosto da arte que tenho tatuada em meu corpo e penso, sem dúvida, em fazer outras mais.

Cristiano Facó, designer gráfico, agência Octopus
A tatuagem sempre me fascinou desde criança. Não via a hora de poder fazer uma e, antes de completar 18 anos, circulava por ateliês de tatuagens sempre que tinha um tempo livre, sonhando em fazer uma. Lembro-me de todas as que fiz como se fosse hoje e a história de cada uma delas, mesmo as que já cobri com outras... rs. Acabei ficando amigo dos tatuadores de tantas visitas que fiz no tempo do colégio.
Minha primeira tatuagem foi logo aos 18 anos, fiz o que o meu dinheiro podia pagar, um tubarão bem pequeno que, na verdade, era o desenho do cartão de visita do tatuador no Guarujá, sem falar que este era o dinheiro da passagem de ônibus para voltar para casa.
Bom, o tempo passou e o fascínio pelas tatuagens só aumentou, sempre estive envolvido com elas e seus desenhos. Sou designer gráfico e publicitário, sempre ouvi de amigos que eu deveria tatuar. Foi, em 2001, ao sair de um emprego como gerente de Marketing do Carrefour, que eu resolvi comprar um kit de tatuagens e aprender a tatuar. No começo, eu parecia como um macaco com gilete nas mãos, já saí fazendo uma grande tatuagem na minha perna. Depois disso, trabalhei por um ano em um ateliê de tatuagem até ser chamado novamente para atuar com Varejo. Mas sempre que posso, faço uma tattoo em algum amigo, familiar ou em mim se faltar cobaias.
A última tatuagem que fiz foi o fechamento do meu braço inteiro e do peito esquerdo, fechando várias tatuagens que eu já tinha, devo ter aproximadamente 30 tattoos se contar tudo.
O estilo que eu mais aprecio é o das orientais, todas ligadas a significados dos antepassados e suas crenças, quase todas as minhas tatuagens são orientais.
Dentre elas, um tigre samurai (peito), dragão (braço direito), uma carpa e um Raijin deus do trovão (braço esquerdo), Hanya máscara protetora (perna esquerda), um tigre e uma serpente (perna esquerda), Darth Vader e Frankenstein (perna direita) e um Mickey pirata (nas costas).

Fabiana Palma Leite, estudante de Jornalismo, Klash Tattoo
Estou me formando em Jornalismo, e atuo como piercer (perfuradora corporal).
Fiz minha primeira tatuagem com 14 anos e cada desenho em meu corpo representa uma fase/época da minha vida – as quais quero sempre levar comigo –, algumas são homenagens, como as coroas que tenho tatuadas na cabeça. Uma para minha avó, outra para meu avô.
Trabalhando com piercings, cheguei a conciliar alguns trabalhos em empórios, atendendo a um público classe A. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito, senti apenas curiosidades das pessoas em relação à dor, como são colocados alguns piercings etc.
Cada vez mais as pessoas se tatuam e se perfuram, o preconceito ainda existe, mas as pessoas estão aprendendo a "respeitar" mais nosso estilo de vida e estão mais curiosas. 

Frases

Washington Oliveto
Diretor da W/Brasil
“Tanto para a W/Brasil, como para mim, o que importa numa pessoa é sua cabeça e não o que ela tem no seu corpo. Um funcionário talentoso, de bom caráter e com muita vontade de trabalhar pode usar o que quiser. Até entendo que existam restrições para alguns setores. Mas nosso ambiente é de pura informalidade.”
Fonte: http://www.tattooilha.com.br/noticias_pop_1.htm

 

 

 













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