revista profashional

Pano pra Manga - Edição 88+89 - por Kai Hrebabetzky

“Para viajar, basta existir" (Fernando Pessoa)

 

Por tantos lugares, eu já havia viajado, tantas culturas, pessoas, cores e expressões havia visto, línguas que não entendi, formas que não decifrei, cidades inteiras recheadas com o desconhecido, surpresas em suas esquinas, odores em suas ruas, sons inéditos em seus rádios, televisões, alto-falantes, muitas vidas, tão diferentes da minha.
Por diversas vezes, eu já estivera pronto para partir, ali, no portão de embarque à frente de um monstro de metal que frequentemente me faz, por causa de seu tamanho e peso, duvidar de sua capacidade em voar, diante de fileiras de pequenas janelas que me parecem tão frágeis, preenchidas por pequenos rostos, atentos ao momento da decolagem, pois, a partir dali, não há volta.
Dessa vez, o destino era novo, a China. Nunca estivera na Ásia, portanto, mais uma vez, esperava surpresas e que surpresas. Embarquei com amigos recém-feitos, éramos oito, amigos de cinco minutos que, em poucas horas, já eram amigos de anos, tomamos nossos lugares em duas fileiras do avião. Começamos a conversar, já que estávamos privados de alternativas, sem sono, sem baralho e sem algo que funcionasse direito no avião em que estávamos. Vinte e quatro horas de voo, com uma parada em Madri, já sabia dos gostos, desgostos, semelhanças e opostos de cada um dos presentes.

Saindo do avião, não estávamos mais em nossa terra e sim em Beijing, aeroporto grande, porém vazio, talvez pelo horário, portanto, nada havia o que diferenciasse o local em que estávamos com qualquer aeroporto que tivesse contratado todos os seus funcionários na liberdade. Esse foi o último momento em que tive essa impressão, pois, a partir dali, tudo mudava drasticamente e a primeira pergunta logo veio à mente: “Onde fui parar?”.
Dizer que se comunicar na China é difícil, é partir do princípio que já se saiba chinês, pois até eles parecem ter dificuldade de se entenderem (tanto que todos os canais também têm legendas, apesar de já serem em chinês). O idioma inglês, muitos dizem saber, poucos entendem, mas quase ninguém realmente fala, e aí é que o desafio realmente começa, você percebe que linguagem corporal é a única universal, ou pelo menos a que chega mais perto.
Depois de tirar as primeiras fotos e pegar as malas, encontramos a nossa guia, entramos no ônibus rumo ao hotel. Eram cerca de cinco horas da manhã quando chegamos; foi ao longo do caminho para o hotel que tive a minha primeira surpresa. A cidade chinesa que eu acreditava se assemelhar ao centro de São Paulo, apertado e cheio, era ampla e espaçosa, com prédios altos e bonitos. O hotel era cinco estrelas, nosso quarto, um luxo, a vista linda, e cheio de brasileiros que completariam nosso grupo.
Demos entrada cedo no hotel, fomos direto para o café da manhã, ouvimos muitos brasileiros conversando ao nosso redor, mas era hora de comer, pois estávamos famintos e nem demos muita atenção aos outros. Peguei meu prato e fui ver o que havia, ovos, bacon, torrada, além de peixe frito, tofu, sopa de ovo, batata frita, cogumelos, fora mais algumas frituras e legumes os quais já fiz questão de esquecer. Enchi meu prato de ovo, bacon e torrada e fui atrás de algo para beber. Como havia acabado o suco de laranja, peguei um leite que tinha gosto daquele que fica na tigela depois de comer Sucrilhos.
O primeiro lugar que fomos conhecer foi a cidade proibida, um local gigante e bonito com milhares de pessoas e um calor que, apesar de tantas viagens, eu ainda desconhecia, o qual seguiria firme durante as duas semanas da minha permanência, portanto, logo aprendi a valorizar meu leque e minha água que consumi em quantidades titânicas. Bem, na tal cidade, aprendi que nós ocidentais somos celebridades entre os chineses, e logo vieram nos pedir fotos com eles e seus filhos para recordação. Comecei também a me enturmar com o restante dos brasileiros com os quais estávamos e a rotina logo se estabeleceu, conhecer lugares e sabores (sabores que normalmente eram bastante desagradáveis) de dia, conversar e jogar cartas à noite.
Aprendemos a fazer pipas e pintar máscaras, fizemos compras e comemos patos de beijing, escalamos a grande muralha da China que tomou minhas forças enquanto tentava alcançar o topo.
Estava na China havia quatro dias, já havia enchido as malas de experiências novas e muamba. Estava na hora de embarcar para outra cidade chinesa, dando tchau ao céu sempre coberto pela poluição de Beijing e rumar para Shanghai. Ainda houve tempo no aeroporto para comer no KFC e conhecer os Harlem Globetrotters antes de seguir viagem.
Shanghai é uma cidade que me arrepia só de lembrar, prédios de tamanho estonteante, repletos de luzes e cores, com mais lojas da Armani, Gucci, Chanel, etc. do que qualquer outro lugar que eu já conhecera, carros importados e restaurantes maravilhosos em cada esquina e ao longo de todas as ruas. Nesse ponto, já conhecia bem a praticamente todos e nos divertíamos juntos com as descobertas deste novo mundo, fomos a teatros e jantamos em terraços com vistas incríveis.
Um dos lugares que visitamos foi a Expo 2010, na qual encontramos dezenas de pavilhões maravilhosos com destaque para os da Inglaterra e Arábia Saudita, no entanto, só entrei no do Brasil já que as filas eram gigantescas e o passaporte nos permitia entrar sem fila no de nosso País. O hotel no qual nos hospedamos, em Shanghai, também era ótimo, usufruímos de sua piscina e Sky Bar, o que deixou lembranças e contas inesquecíveis.
Em determinado momento, fomos ao topo da maior torre de televisão da Ásia. A vista proporcionava uma ideia da grandeza daquela cidade, do desenvolvimento econômico daquele país. À noite, a bordo de um barco, demos uma volta nos principais prédios e marcos que, com a sua iluminação, nos trouxe uma vista que nenhuma foto é capaz de reproduzir com exatidão.
O próximo passo era Hong Kong; com passaporte em mãos, fomos conhecer aquele pedacinho de terra com tanta história. Como de praxe, até aquele momento, a cidade era repleta de prédios altos e movimento forte, no entanto, era também compacta, com tudo construído muito próximo um do outro, viadutos por entre os prédios que me lembraram o minhocão, e finalmente pessoas que entendiam meu inglês assim como eu entendia o deles.
Naquele momento, aquilo já tinha deixado de ser a minha viagem para a China e havia se tornado uma viagem com amigos. Toda viagem entre amigos é maravilhosa, ainda mais quando é para um novo mundo. Já tínhamos nossas gírias, nossas piadas e nossos segredos, nossas fofocas e histórias, além de tantas coisas mais que eram nossas, viajantes da China.
No dia seguinte, fomos para outra parte de Hong Kong e descobrimos um lado novo, com lindas praias, esparsos e inacreditavelmente altos e belos prédios, mais lojas para fazer compras, além de gostosos restaurantes (neste momento, é sábio fazer parênteses para avisar que toda comida de lá é uma tragédia). Sentamo-nos em um bar com vista para a praia e muitos estrangeiros. Pedimos nossas cervejas favoritas, com muito papo bom e descontraído. Saindo de lá, entramos no ônibus e fomos ao shopping, com muitas compras como a óbvia consequência.
À noite, o destino foi o melhor restaurante japonês da cidade, com uma linda vista e grande mesa. Era a última noite da maioria do grupo e a despedida era inevitável. Saímos do restaurante e ficamos à beira do rio, olhando para os belos prédios à frente, com uma banda tocando música ao lado, ou seja, uma despedida inesquecível.
Mais tarde, com o grupo já reduzido, fomos a um bar com banda chinesa tocando “Highway to hell”, um segurança nigeriano, que já morava há nove anos em Hong Kong, como destaque para curtir os últimos momentos de China.
No último dia, éramos novamente os oito do começo da viagem, fomos uma última vez às compras, atrás das coisas que ainda havíamos esquecido. À tarde, fizemos nossa mala e sentíamos claramente o clima de adeus que reinava. Entramos no nosso ônibus em direção ao aeroporto e recapitulávamos a viagem, as histórias, as piadas, os acontecimentos únicos e memórias talvez eternas. Na epopeia que foi a viagem de volta, conversamos sobre os mais diversos temas, além de comentar coisas que cada um havia percebido. Jogamos nosso último truco, desembarcamos do último avião, fizemos nossas compras no Duty Free e saímos para encontrar nossos parentes. Despedimos-nos talvez temporariamente, talvez não, voltamos cada um à própria vida, todos um pouquinho diferentes, mas essencialmente os mesmos.
Agora me resta contar como foi a China; para todos, é um pouquinho diferente, com detalhes e focos alternados, mas, para mim, será sempre uma história rica em acontecimentos e experiências, já vejo com saudade meus novos velhos amigos, e de surpreender-me a cada esquina, além de poder falar mal na frente das outras pessoas que não te entendem, é claro.
Certa vez, George Augustus Moore, poeta irlandês, disse: “Um homem viaja o mundo inteiro atrás daquilo que ele precisa, e torna a casa para encontrá-lo”, ainda não encontrei, parece-me que tenho de viajar mais um pouco.

Notinha da redação
Nesta época globalizada, cheia de encontros e desencontros, nossa Publisher, Sandra Teschner, de malas prontas para Nova York, encontra seu filho Kai voltando da China, em pleno aeroporto! Foi nesse momento que Kai ganhou novamente o espaço exclusivo de Sandra e, pela segunda vez, divide suas experiências e emoções aqui no Pano Pra Manga.

 

 













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