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ENTREVISTA - Rogério SKYLAB - Edição 86+87 - por Julia Moraes e Marisa Abel

Skylab para maiores
Despretensioso, ousado, irreverente, sem qualquer receio de dizer o que pensa e sente, assim é Rogério Skylab, o cantor e compositor das coisas comuns e, como ele mesmo diz, dos terrores noturnos

 

Aparência tranquila, fala mansa (até começar a cantar), divertido na sua essência de ser. Mesmo que conquistar o riso não seja o objetivo quando solta suas palavras pelo ar, Skylab fala especialmente para a Profashional, em uma entrevista que foi um tanto inusitada, e comenta sobre a vida profissional, as preferências e o futuro de sua carreira.
Com letras de músicas que fogem dos padrões convencionais, em que algumas chocam e outras garantem diversão, quem ouve Skylab tem de estar com o espírito fora do estado de julgamento. Algumas chocantes, outras engraçadas, o retrato do dia a dia, de atividades que se concretizam quase que por osmose virando palavras, essas frases, que unidas às melodias, viram músicas que retratam o que ele pensa, sente e faz.
Quer conhecer um pouco mais sobre essa figura indescritível? Leia a entrevista a seguir.

Profashional: Em algumas entrevistas, você comenta que encerrará a série Skylab no disco X, alguma mudança de planos ou essa confirmação se manterá?
Rogério Skylab: Essa confirmação se mantém. Quero mergulhar no esquecimento. Se bem que, pensando bem, para cair no esquecimento, é preciso antes a notoriedade, coisa que nunca tive.

P.: Trace um paralelo entre o Skylab artista e o Rogério Talomei. Quem é você, um produto real ou um personagem?
R. S. Nunca fui personagem. O Rogério Tolomei é o Rogério Skylab. Sem tirar nem pôr.

P.: Comente a sua paixão e incursão no campo da literatura?
R. S. Acho que, desde que nasci, me sinto assim: um animal literário. A música é que foi uma intrometida.

P.: Quais são os escritores que influenciam a sua obra?
R. S. Ihhhh, tantos. Vou tentar lembrar alguns: Joyce, Henry James, Kafka, Borges, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral, Machado de Assis... e por aí vai.

P.: Você é formado em Filosofia e trabalhou por um longo tempo no Banco do Brasil, como você conciliava a necessidade de expressar-se artisticamente num trabalho (comente sobre ele) regrado.
R. S. Olha, artista contemporâneo que se preze tem de exercer uma atividade secundária (medicina, engenharia, funcionário público...) É daí que vem o humus da inspiração. E quanto mais regrada a atividade, melhor. Tenho a ligeira inspiração que devo muito ao Banco do Brasil.

P.: A provação é parte do mecanismo/tentativa de “despertar para uma realidade”?
R. S. Aprovação ou provação? A segunda opção é melhor, né? Pôr-se à prova o tempo inteiro. Habitar as fronteiras de si mesmo.

P.: Você coloca elementos distintos em sua música, a pegada rock n’roll com um toque de jazz e punk. A carioquice skylabiana entra em que momento em sua música?
R. S. A carioquice está presente o tempo todo. Desde o sotaque até a forma informal de misturar as coisas. Não se levar muito a sério. Olhar as coisas de uma forma um tanto blasé. Distante dos grandes discursos. Valorizar mais a pessoa comum. E permanecer distante de todos os guetos.

P.: Conte sobre os seus mais recentes trabalhos. Fale também do projeto Skygirls, Orquestra Zé Filipe, de sua banda e afins.
R. S. Sempre trabalhei com essa banda de apoio. Com eles, produzi a série dos Skylabs. Houve um momento em que senti necessidade de variar. SKYGIRLS e ROGÉRIO SKYLAB & ORQUESTRA ZEFELIPE foram produzidos nesse diapasão. Mudei tudo. Mas o diferente é ainda o mesmo.

P.: Como é que você vislumbra a moda? Uma combinação de elementos, cores ou superficialidade?
R. S. A moda nunca esteve tanto em voga. Os desfiles se tornaram cult. São tão concorridos como um show de banda de rock. O que é preciso detectar é o vocabulário dessa tribo da moda, seu universo, seus anseios. A moda e a publicidade são muito afins. É o capitalismo no seu nível mais sofisticado.

P.: De todos os trabalhos que já compôs, existe algum especial que te define?
R. S. Trabalho em profusão. Sou que nem Hollywood: 95% é “merda”, mas 5% é genial e é a melhor coisa que se produziu no gênero. Por exemplo: o SKYLAB VII, o SKYGIRLS e o SKYLAB X que ainda não foi lançado, foram as minhas melhores coisas. Na música brasileira, é difícil encontrar algo que supere esses meus três discos. Mas eles permanecerão esquecidos como tudo que fiz até hoje.

P.: “Não sou ninguém” e “Múmia” retratam uma lado crítico de si mesmo e da sociedade?
R. S. Da sociedade, não. Nunca fui um crítico da sociedade. A vítima nas minhas músicas chama-se Rogério Skylab. Vítima e algoz.

P.: Algumas de suas músicas possuem certa dose de maldade nas letras. Você é como algumas letras dizem?
R. S. Eu sou todo a minha letra. Como já afirmei anteriormente, não sou personagem. Tudo é vivencial.

P.: Fazendo uma retrospectiva sobre seu trabalho, como você o avalia?
R. S. Dei muitos tiros. A maioria fora do alvo. Alguns, eu acertei em cheio. O problema é que esse alvo era sempre eu. Daí as marcas de bala que trago no meu corpo. O SKYLAB X vai ser o último. A ele me apliquei muito. Você sabe, não sou bom de pontaria. Mas espero que eu acerte. E que seja fatal.


Ser profashional é... Pra mim, é ter a coragem de dar um tiro no pé.

 

 

 













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