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COMPORTAMENTO - Edição 90+91 - por Mirella Stivani

It's Only Rock 'n' Roll (But We like it)
Música, comportamento, moda, atitude: o rock existe (e resiste) há decádas, marcando gerações com seu estilo inovador, rebelde e irresistível.

 

Tudo começou em meados da década de 1950, Estados Unidos. As primeiras guitarras ecoaram e o mundo nunca mais foi o mesmo. Um novo ritmo surgia e, tempos depois (até hoje), continua revelando artistas e gênios, como Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, e muito mais.

Dos primeiros passos, passando a rebeldia, transgressão, atitude punk, fusões e experimentações, o rock definiu um estilo de ser, que se traduz não só na música, mas também na atitude e no jeito de se vestir. A moda rocker ultrapassou o limite dos palcos para conquistar as passarelas fashions e coleções de grifes internacionais. No Brasil, o primeiro sucesso no cenário do rock surgiu na voz de uma cantora, Celly Campello, que estourou nas rádios com os sucessos “Banho de Lua” e “Estúpido Cupido”, No início da década de 1960, a Jovem Guarda, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, enlouqueceu os fãs com suas letras românticas cantadas em um ritmo acelerado. O rock brasileiro também trouxe nomes, como Secos e Molhados, Raul Seixas, RPM, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, Blitz, Plebe Rude, Legião Urbana, Raimundos, Jota Quest, etc. A inocência ficou de lado e as letras passaram a traduzir a rebeldia, busca pela liberdade e os anseios de várias gerações.

A história do rock teve um começo, continua na ativa, mas esqueçam o fim, ele não existe. Parafraseando os Rolling Stones: It's Only Rock 'n’ Roll (But We Like It). Yes, we do!

 

O rock 'n' roll é preto”

O Capital Inicial, banda brasileira de rock surgiu em 1982 e continua na ativa, lotando shows e reunindo pessoas com idades bem variadas. Ou seja, não é só de fãs antigos que o grupo se mantém no topo. E qual seria o segredo? O vocalista Dinho Ouro Preto responde para a Profashional. “Sinceramente, eu não sei. Já pensei muito sobre isso e não cheguei a uma conclusão.”
Dinho não esconde que algumas bandas atuais brasileiras, que se declaram como a nova geração do rock, estão equivocadas em sua descrição. Como disse em uma premiação, “o rock 'n' roll é preto”, alusão às roupas escuras, uniformes emblemáticos dos rockers. “A garotada de hoje é um pouco alienada. Existem muitos assuntos interessantes para serem tratados nas músicas, não apenas falar do amor que se foi. Antes do Capital, tínhamos o Aborto Elétrico, que teve um disco proibido por causa de suas letras. Era época da ditadura, o rock era uma forma de expressar a situação caótica. Atualmente, falta um pouco de conteúdo cultural para quem está começando”, declara o vocalista.
Yves Passarell, guitarrista do Capital Inicial, também acredita que as bandas de rock precisam ter atitude sempre e “chutar o balde”, no bom sentido. “O rock não é apenas ligar o amplificador. Você precisa criar também um som bacana, letras coerentes e conquistar o público a cada dia”, diz.
Sobre a atitude roqueira, Dinho lembra que “quando a gente começa, é tudo em excesso. Muito rock, muito sexo, muita droga. Com o passar dos anos, encontramos o equilíbrio e ficamos apenas com o que é bom”, finaliza.

Entrevistas

Paulo Ricardo, o ícone de uma geração

O grupo brasileiro RPM nasceu em 1985 e, em pouco tempo, bateu todos os recordes de vendagens da indústria fonográfica brasileira. Revolucionou a história do rock nacional e abriu novos caminhos para as bandas que ensaiavam uma entrada nesse nicho tão restrito. O sucesso foi imenso, mas a banda durou menos que os fãs gostariam: em 1987, ocorreu a primeira separação. Em 2002, ensaiaram um retorno, muito bem-sucedido, mas com curta duração. O futuro é incerto.
Com a separação do grupo, Paulo Ricardo, vocalista e baixista do RPM, apostou na carreira solo e manteve sua sólida participação no mercado nacional. Durante todos esses anos, apostou também em outros gêneros, mas sem nunca deixar o rock de lado. Confira uma entrevista exclusiva com o músico.

Profashional – Você afirmou que está cada vez mais rock 'n' roll. O que seria exatamente isso?
Paulo Ricardo – Nós temos uma base de nossa personalidade que é formada na adolescência. O rock, por sua abrangência, desde o seu nascimento, extrapolou os limites da música e se tornou uma espécie de contracultura e filosofia, tendo sido influente no comportamento e evolução de costumes. Tudo isso me pegou muito novo, o que, de certa forma, contribuiu para a minha personalidade. Com cinco anos, eu já gostava de Roberto Carlos e Beatles.

P. – Mesmo quando você foi atrás de outras vertentes da música, levou consigo a essência do rock?
P. R. – Depois do fim do RPM, comecei a olhar mais a música brasileira, mergulhei mais fundo na cultura popular. Por mais que eu dialogue com outras formas de música, a minha essência vai estar sempre ligada ao rock. Mas quero aprender coisas novas. Não me interessa repetir o que sempre fiz. Acho que uma característica do artista é ter um traço que o público identifique em todas as suas fases. Eu gosto de diferentes tipos de músicas. Quero fazer sucesso, não quero ficar no lado B que ninguém conhece.

P. – É possível viver de rock no Brasil?
P. R. – O RPM vendeu mais de 5 milhões de cópias. Eu sou suspeito para dizer isso. O direito autoral e toda a estrutura da música por aqui são muito desonestos. O rock ficou muito esvaziado depois da nossa geração, perdeu espaço para outros gêneros. Mas também é uma questão de competência. O público brasileiro é muito aberto. Mas eu acho que o rock já teve seu apogeu. Se dá para viver? Depende da sua expectativa e missão.

P. – Quais os aspectos positivos do rock?
P. R. – A liberação, do ponto de vista sexual, que abriu para uma visão generosa da sexualidade. O rock também abrange todos os credos, está ligado a uma luta pela liberdade individual, bem-estar dentro da sociedade, vibração e protesto. Também tem uma linguagem fácil e acessível.

P. – Existe uma preocupação sua de mostrar um lado fashion no palco?
P. R. – Preocupação não é a palavra exata. Existe sim um prazer fashion em interligar todas as expressões artísticas. Um show é luz, cenário e figurinos. Minhas roupas de palco ficam no depósito, junto com os instrumentos. Eu gosto muito da moda porque também é uma forma de expressão. No meu guarda-roupa, para o dia a dia, há Osklen, Iódice, Fórum.

P. – Por que o rock fascina tanto?
P. R. – Primeiramente, pelo claro componente sexual que é muito intenso. Também não existem preconceitos em relação à escolha sexual ou religião, por exemplo. Fora a vibração, alegria, celebração, liberdade. Isso é fascinante.

Serguei, o divino do rock
Aos 77 anos, Sérgio Augusto Bustamante, mais conhecido como Serguei, continua como uma das figuras mais emblemáticas do rock brasileiro. Sem nunca deixar de usar calça jeans, camisetas e tênis, ele espalha por onde passa a ideia de que podemos continuar a ser nós mesmos, independentemente da idade.
O nome artístico surgiu graças a um amigo russo que não conseguia pronunciar “Sérgio” corretamente. Assim, nasceu Serguei, o divino rock, que entre suas façanhas também está o affair que teve com a inesquecível Janis Joplin. Desde 1982, vive em Saquarema, Rio de Janeiro, e mantém em sua residência um museu, chamado Templo do Rock, que já foi visitado por mais de vinte mil pessoas. Serguei fala à Profashional.

P. – O que é rock 'n' roll para você?
Serguei – É toda uma atitude criativa e despojada. Faz parte da revolução jovem que queria mudar o mundo. As ideias ainda estão por aí, não exatamente como a gente queria ou gostaria que estivesse. Mas a pedras não param de rolar.

P. – Você gosta de ser chamado de lenda do rock?
S. – Já ouvi lenda, biblioteca, vários outros adjetivos. Eu prefiro ser chamado como Serguei, o divino do Rock.

P. – O visual marcante e despojado é uma marca sua. Isso permanece fora dos palcos?
S. – Eu não tenho visual rock, proposital, sempre gostei de usar tênis, t-shirts, corto gola e mangas, não gosto de nada me incomodando. Minha imagem se mistura a de milhares de jovens. O importante é a ideia.

P. – Como você vê o cenário atual do rock brasileiro?
S. – A sociedade de hoje é muito careta, chata e conservadora. O cenário do rock está um horror. O artista, a gente conhece no palco. Você pode gravar 500 discos e não ser um verdadeiro artista. Quando vou fazer um show, passo toda a emoção da música. Essa história de ficar num banquinho cantando é coisa de universitários dos anos de 1960. São compositores que cantam. Faltam cantores de verdade, como Elis Regina. Elisete Cardoso, Dalva de Oliveira e Ângela Maria. Atualmente, os grupos fazem letras de pagode em ritmo de rock. Paul McCartney e John Lennon escreviam coisas maravilhosas aos 19 anos. As letras de hoje falam tanto de 'gata' que um dia vou sair miando. As bandas parecem todas iguais.

P. – Como era a Janis Joplin?
S. – A Janis, que coisa mais linda. Muito danadinha... Disse que ela não precisava usar drogas, era perfeita sem nenhum artifício. Mas era muito independente, fazia o que queria.

P. – O fashionismo é importante no rock?
S. – A minha geração nunca usou camisa de marca. Mas já desfilei na SPFW. A Cavalera fez uma camiseta escrita “Eu Comi a Janis Joplin” – foi um sucesso!

Dica cultural
Dois filmes trazem episódios marcantes da história do rock. “O Garoto de Liverpool” e “The Runways”. O primeiro mostra a juventude de John Lennon. O segundo é baseado na história da banda de rock da década de 1970 formada só por mulheres.

 

 

 

 

 

 













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