Em cena, o teatro!
Paulo Betti, digno representante dos palcos, foi eleito por nós para estampar esta edição que reverencia o mundo do espetáculo teatral. O ator nos recebeu, com uma simpatia contagiante, para um delicioso bate-papo sobre vida e arte.
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Três toques da campainha, as cortinas se abrem, a atenção se volta para os palcos, para a percepção e contemplação da história que será encenada, é a partir daí que se inicia o mergulho em um mundo no qual o imaginário do público é despertado. E por o teatro aflorar os sentimentos, recebe os nossos holofotes nesta edição.
Ao mesmo tempo em que possui uma presença marcante, Paulo Betti transparece uma serenidade que envolve e faz questão de nos deixar à vontade. Foi no camarim do teatro Vivo, em São Paulo, enquanto se preparava para entrar em cena com a peça "Deus da carnificina, uma comédia sem juízo", que nosso bate-papo rolou.
Ele nos confessa que, embora goste de moda, seu contato direto com o universo fashion se dá quando está ao lado dos figurinistas, mas o que não o impede de ser um apreciador deste mercado.
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Aos 58 anos de idade, o ator, que foi criado em Sorocaba (SP), embora tenha nascido na cidade de Rafard terra de Tarsila do Amaral, também no interior do Estado, é um ícone na arte de representar, acumula as atividades de ator, produtor e diretor tanto no teatro, cinema quanto na televisão. Em sua carreira, são diversas minisséries, novelas, filmes e peças teatrais que o fizeram um ator completo.
Seu início no teatro amador se deu aos 16 anos de idade, de lá para cá, não cessou o seu desejo de trabalhar com a arte de contar histórias, muitas destas que se cruzam com a vida pessoal, como é o caso de “Cafundó”, filme que dirigiu e cuja história conheceu na infância, ou mesmo a cidade em que nasceu ter em sua história influência de Irineu Evangelista de Souza, conhecido como Barão de Mauá, personagem que o ator protagonizou nas telonas.
Moda, cinema, teatro, TV, arte e vida, você confere abaixo na entrevista exclusiva de Paulo Betti à Profashional:
Profashional: No filme “Zuzu Angel”, há uma cena na qual Stuart diz a frase: “Nossos sonhos compensam qualquer sacrifício”. Você concorda?
Paulo Betti: Sim, devemos tentar fazer com que os sonhos virem realidade.
P.: Falando um pouco de moda, que é o grande foco da nossa revista, como você traduziria esse relacionamento da arte com a moda?
P. B.: É gostoso estar bem vestido... dá uma alegria!!!
P.: Você costuma dar uma “espiadinha” nas tendências antes de comprar alguma peça de roupa?
P. B.: Gosto de ver fotos nas revistas, às vezes, vejo desfiles na televisão, acho que os que criam a moda são verdadeiros artistas. Os bons, é claro!
P.: É você mesmo que as compra ou tem alguém que faz isso por você?
P. B.: Gosto de comprar, mas também adoro quando compram pra mim, adoro quando sou vestido pelos figurinistas do trabalho que faço, adoro figurinistas de teatro, cinema e televisão, eles sempre me veem de uma maneira que eu não vejo.
P.: Atuando no cinema desde 1985, você acompanhou várias fases do cinema nacional. Fale sobre sua experiência neste mercado.
P. B.: Acho muito bom que o cinema nacional exista e que seja cada vez mais forte, embora o espaço para a exibição dos nossos filmes ainda seja muito pequeno. Deveria ser lei que a programação nas salas de cinema fosse dedicada em maior porcentagem para o nosso cinema. Mas o dono do cinema quer ganhar dinheiro e o mercado externo domina a programação. Por isso a necessidade de leis que regulem isso. Não é fácil viver do cinema no Brasil.
P.: Já que a vida real não tem remake, alguma dica para que a história fique mais bela?
P. B.: Aqui vale uma citação de Henry James: “Fazemos o que podemos – damos o que temos. A nossa dúvida é a nossa paixão e a nossa paixão é o nosso trabalho. O resto é a loucura da arte”.
A única certeza que tenho é de ser agradável aqui com você para que você possa desempenhar seu papel muito bem, é o melhor que podemos fazer agora. Não temos certeza do que vai acontecer depois, então temos de ser o melhor possível agora.
P.: Trinta filmes no currículo entre histórias reais, comédias e ficções. Algum papel em especial que tenha te emocionado?
P. B.: Tenho alguns: “Lamarca”, “Mauá – o imperador e o rei”, “Cafundó”, “Guerra de Canudos”, e “Ed Mort”.
São filmes importantes para mim. Cafundó, eu dirigi e foi muito bom trazer a história de João de Camargo, um taumaturgo de Sorocaba, onde fui criado, um inventor de uma religião legítima. Lázaro Ramos é o protagonista e produzir esse filme foi muito bom. Parece uma missão que cumpri e que me trouxe muito aprendizado.
P.: Você citou a maioria que tem como base a história do Brasil. É sua preferência ou foi só uma coincidência?
P. B.: Foi coincidência, mas eu gosto de pesquisar, de me aprofundar nos assuntos, de saber um pouco da história. Tenho alguns amigos que são professores de história e fico muito feliz quando eles me contam que usaram meus filmes para contar um pouco da história de nosso País. Cinema é uma forma alternativa de se contar a história e quando isso é usado nas faculdades e escolas, fico muito feliz. Sou muito ligado à escola, à educação, sou fruto de uma boa escola pública. Estudei sempre em escolas públicas em Sorocaba, e o ensino era ótimo. Fiz um Ginásio Industrial que me deu régua e compasso!
P.: Por duas vezes, você foi Lamarca nos cinemas. O que ele representa para você?
P. B.: Quando fiz o filme, me dediquei completamente à memória do Lamarca, tenho o maior respeito por ele, pelo que ele fez, independentemente se ele estava certo ou não, era um idealista, viveu aquelas circunstâncias, a luta contra a ditadura, entregou-se, foi um herói, a meu ver, morreu por uma causa
P.: Durante algum tempo, você se dedicou à carreira acadêmica lecionando na Unicamp. Conte como foi essa experiência.
P. B.: Me formei na EAD, na USP. Dois anos depois, estava dando aula na Unicamp. Tive muita sorte, convivi com pessoas incríveis na Unicamp, o diretor Celso Nunes, pai do Gabriel Braga Nunes, Celso foi um grande mestre pra mim, foi ele quem me levou pra Unicamp.
Lá conheci Almeida Prado, grande compositor, Marlyse Meyer, Benito Juarez, aprendi muito com o time da Unicamp, capitaneado pelo genial Rogerio Cesar Cerqueira Leite.
P.: Manter o sucesso durante tantos anos, seja no cinema, teatro e TV, é para um grupo restrito de profissionais. Você, como parte desse grupo que trabalha com tanta dedicação, atribui quais características para se manter sempre trabalhando?
P. B.: Tenho muito prazer em fazer o que faço, adoro atuar, adoro ensinar, adoro aprender. O sucesso é algo decorrente do trabalho. Não tenho muito a noção do sucesso. Sempre tenho muitas dúvidas, acho sempre que poderia ter feito tudo melhor.
P.: No teatro, você já atuou em peças de Molière, Franz Kafka e Nelson Rodrigues. Algum autor especial que gostaria de poder trabalhar?
P. B.: Sim, muitos, principalmente autores contemporâneos brasileiros. Pena que o tempo seja tão curto. Adorei trabalhar recentemente com Domingos Oliveira, grande dramaturgo, diretor e cineasta brasileiro.
P.: Alguns atores já fizeram “Ed Mort”, mas a sua interpretação é inesquecível, conte como foi esse personagem.
P. B.: Do que mais gostei foi de contracenar com Chico Buarque, Caubi Peixoto, frequentar o centro de São Paulo nas filmagens, a Galeria do Rock perto do Largo Paissandú. Contracenar com a Claudia Abreu, foi muito legal fazer esse filme e teve um dia inesquecível quando o Veríssimo visitou o set.
P.: “Deus da Carnificina, uma comédia sem juízo” apareceu de que forma na sua vida?
P. B.: Foi um convite do Emilio Mello com quem eu já havia trabalhado numa peça do Mauro Rasi, “Viagem a Fortli”. O Emilio é um excelente diretor, não foi mau fazer a peça, o Emilio é exigente, mas deu certo, é tão bom quando dá certo no teatro!
P.: Fale sobre a peça, a repercussão, o trabalho em cena, os bastidores...
P. B.: Somos quatro e estamos muito afinados, gostamos de fazer a peça, o público gosta da peça, o texto é excelente, ganhou um Tony Awards, o prêmio que é o Oscar do teatro. Estamos todos flutuando, deliciados, curtindo com muita aplicação o sucesso da peça, respeitamos os deuses do teatro, a Julia Lemmertz, a Débora Evelyn e o Ora Figueiredo são companheiros maravilhosos.
P.: Casa sempre cheia e pessoas retornando para ver o espetáculo, a que você atribui esse sucesso?
P. B.: O texto, a direção do Emilio, a dedicação do elenco. O cenário, os figurinos, o contrarregra Luis, o som do João, é uma equipe muito afinada, comandada pela produtora Cinthya Graber.
P.: Voltando-nos um pouco sobre o texto da peça. Você acha que as tensões nos governam?
P. B.: Vivemos diariamente sob tensão. A tensão nos governa, e se não fosse ela, seríamos desmilinguidos, não pararíamos em pé. Portanto, ela é necessária. Mas a violência constante, o medo de ser assaltado, tudo isso nos deixa tensos de uma maneira negativa. A falta de tempo, a sensação de quase certeza de que não vai dar tempo de fazer tudo é um tipo de tensão que vai chegando com a idade. Outra acontece por causa da tecnologia, o celular avisando que tem e-mail novo, a ansiedade de saber de quem é. Avião é uma necessidade, mas ao mesmo tempo em que dá uma sensação gostosa de estar fora do mundo, inacessível, dá medo de cair a qualquer turbulência. A peça “Deus da Carnificina, uma comédia sem juízo” fala de outro tipo de tensão, aquela das relações entre as pessoas. As crianças de 8 anos no Congo, já com armas na mão matando outras pessoas, saber disso me faz ficar tenso, as injustiças, os crimes..., mas não adianta só ficar tenso, temos de reagir, fazer alguma coisa, lutar para que as coisas não continuem como estão, procurar dar o melhor em cada coisa que fazemos, com muito amor.
P.: Na sua opinião, é importante manter o verniz social?
P. B.: Sim, ninguém deve sair por aí fazendo o que lhe vem à cabeça. Mas verniz é outra coisa, é superfície, devemos ser educados profundamente, eliminando os preconceitos, por exemplo. Preconceito é falta de educação. Como dizia Nelson Rodrigues, se deixarmos, o homem cai de quatro e começa a guinchar como um animal. Entender as razões do outro, tentar compreender as diferenças, saber que todos somos humanos e que a vida é muito melhor sem violência, talvez a peça queira dizer isso.
P.: Como é “se” dirigir?
P. B.: Dizem que o diretor surgiu quando dois atores estavam em cena, um pediu ao outro que ele descesse do palco e fosse ver se ele estava bem no meio da cena. O que desceu não subiu mais.
Adoro dirigir também, mas estou mais na fase de atuar. Quando dirijo, sou muito complacente comigo mesmo e tendo a fazer o que já sei. Gosto do diretor me levando pra um lado que não conheço, reclamo, mas gosto.
P.: Sendo popularmente conhecido em todo o Brasil, consegue ter algumas horas para você?
P. B.: Sim, claro, como qualquer pessoa, não abro mão de ir à feira, ao estádio de futebol, ninguém nem liga e, quando ligam, adoro tirar fotos, dar autógrafos, é uma delícia ser querido.
P.: Como é seu dia a dia? Quais suas preferências musicais, cinematográficas, os artistas que você curte, as atividades que costuma desempenhar quando não está trabalhando?
P. B.: Gosto de ver os colegas no teatro, trabalho muito na casa da Gávea (www.casadagavea.org.br). Gosto de ir ao Quilombinho, em Sorocaba, uma instituição que funciona na casa onde fui criado, na Vila Leão, são 70 crianças aprendendo a viver, se divertindo, justamente no lugar onde vivi minha infância e adolescência, no mesmo quintal.
P.: As suas horas vagas são preenchidas de que forma?
P. B.: Jogo pingue-pongue, ando de bicicleta, vou ao cinema, leio.
P.: Alguma mensagem para nossos leitores?
P. B.: "Fossemos tudo que somos capazes de ser estaria resolvida a maioria dos problemas do mundo" Ghandi.
Curtas e rápidas:
Cineasta que você admira: Fellini
Teatro é... Vida!
Para relaxar: Sono, transar.
Um momento especial: Quando estou com meu filho João e minhas filhas Juliana e Mariana.
Divisor de águas: A peça “Na Carreira do Divino”, que dirigi em 1979.
Para dirigir um filme é preciso: Muita paciência e obstinação.
Um lugar especial: Cabo Verde, a Ilha de Santo Antão.
Cidade que tem vontade de conhecer: São tantas, adorei conhecer Granada.
Sonho a realizar: Viver até uns 85 e morrer dormindo.
No guarda-roupa não podem faltar: Ceroulas no inverno.
Um adjetivo que te define: Sonhador
Ser profashional é... Lutar até o fim! Suar a camisa...
Em nosso site, você confere a entrevista que realizamos com Orã Figueiredo. Companheiro de palco de Paulo Betti que também atua na peça “Deus da Carnificina, uma comédia sem juízo” e que nos recebeu com muito carinho nos bastidores do teatro.
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