revista profashional

Artigo - Edição 86+87

Nó na língua

 

As expressões de linguagem são o maior arauto do dinamismo dos idiomas. De origem local, por vezes ganham proporções mundiais. Mas a maioria se limita ao tempo e ao espaço. Restringe-se a um determinado grupo de pessoas, região ou profissionais.
De onde surgiu essa expressão? Boa pergunta e tantas vezes repetida! De um modo geral, a sua origem é bem pontual. Na Bahia, temos infindáveis exemplos como a “boca de zero-nove” que se referiria a uma caixa de som de nove polegadas, sinônimo de boa qualidade. Portanto, chamar alguém dessa forma seria um elogio. Assim como “pedra noventa”, usada pelos mineradores para denominar uma pedra com elevado grau de pureza e qualidade, utilizada popularmente para se referir a quem é honrado, cumpridor de seus compromissos. “Tá rebocado” é quando o pedreiro finaliza a sua obra, está confirmado e sem chances de mudança.
Outras expressões ganham o mundo. Quem já esqueceu o “Hasta La vista, Baby” falado pelo “governator” Arnold Schwarzenegger no seu segundo “Exterminador do Futuro”? Ou o “c’est fini” de origem francesa? Ou o “game over” advindo dos jogos eletrônicos?

Mas algumas denunciam o avançar da idade. Arrasado, concluí que não estou mais na flor da idade numa aula para estudantes de graduação em Salvador. Os alunos menores de vinte anos não entendem expressões como “cair a ficha”, “mudar o lado do disco” e “voltar a fita”, simplesmente porque só usaram um orelhão a cartão – aliás, nem telefone público usam mais, agora é apenas o celular –, e música apenas em CD ou MP3. Eles nunca rebobinaram um VHS, todavia, seguem a “dormir no ponto” e deixar a “fila andar”!
Passei apuros quando fui, pela primeira vez, a uma oficina automotiva em São Paulo. Falei ao mecânico que a descarga do carro estava furada. “Mas doutor, o seu carro tem descarga?”. Lá, chama-se escapamento. Aproveitei para reparar umas mossas na lateral e o paulista não entendeu. Eram “amassados”. E a jante com defeito não foi consertada, pois lá a conheciam como roda.
Na papelaria, o baiano também sofre para entender o que é lapiseira, grafite e apontador. Classificador se chama pasta. E as diferenças continuam na padaria, açougue, no trânsito etc.
Enfim, as expressões servem para enrolar ou para desenrolar um diálogo. Quando bem aplicadas, trazem graciosidade à conversa e fazem aproximar mais as amizades. Buscar suas origens pode ser trabalhoso, mas sempre muito divertido.

Fabrício Nascimento – Médico e escritor baiano, e já deu vários nós na língua

 

 













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