revista profashional

Pano pra Manga - Edição 85 - por Sandra Teschner


“Pics” de uma vida profashional, antes dela ter um nome. Fui pensando e escrevendo, sem “relativizar” ou dar o peso exato a quem ou o quê. Pois se assim o fizesse, estaria sentada junto a amigas que escreverão junto a mim uma coletânea dos anos, que sem dúvida será bela, divertida, com fortes pitadas de emoções, paixões, e muita alegria de viver. Leia comendo pêssego (se der) e fique comigo:

Minha vida é pautada pela paixão e pela realização dos meus sonhos possíveis.

 

 

Nasci filha de avó e avô, o que significa dizer que nasci embalada pela composição maior de amor que um ser humano é capaz de receber. Neta de Conceição, minha heroína, estrela maior, meu exemplo de mulher guerreira, doce, do conceito pêssego, macio e doce com um caroço firme por dentro e grande paixão. Neta de “Seu” Moraes, homem corajoso e vibrante, barbeiro de profissão, não hesitou em receber Lampião, quando em passagem por sua cidade, enquanto os outros moradores corriam amedrontados para suas casas.
Vivemos também em uma fazendinha. Fui neta amarrada com restos de chita na cintura, para vencer penhascos em dias de lama e muita chuva. Fui bebê que aprendeu a rir nos momentos mais difíceis. Muito antes do filme “A Vida é Bela”, eles já sabiam que a gente ensina a ser feliz, amando e cultivando o bom humor.

Filha de barriga incomensuravelmente amada pela mãe Lúcia que sonhou uma Sandra, moreninha de maria-chiquinha nos cabelos – imagem que estampava a embalagem da sua bala predileta, somente disponível no cinema da sua cidade natal, no interior da Bahia. Naquele lugar, onde sonhos eram vendidos a bom preço para a dimensão deles.
Meu pai, Jerônimo a quem o jargão – “o Herói do Sertão”, novela de Moysés Weltman, exibida na extinta TV Tupi em 1972 – sempre lhe coube tão bem, nunca escondeu sua paixão por aquela filha – que mais se comportava como um “filho”, dada sua coragem e temperamento forte e decidido. Atributos esses que nos anos de 1970, nas “Terras do sem fim”, era de grande valia. De maneira geral, a mulher Amélia – aquela que era mulher de verdade e não tinha nenhuma vaidade – já era cantada com saudosismo de uma época que se ia e, por consequência, via-se tomar corpo com certa admiração faceira e sorrateira, o estilo da “Marina morena Marina” que pinta o rosto, apesar de ser bonita com o que Deus lhe deu. Assim, sempre fui o positivo de um filho, que ele felizmente viu nascer filha, feminina na proporção certa, mas, “masculina” nas atitudes que inevitavelmente eram tidas como positivas e desejadas.
Vim depois do primogênito Gabriel, meu irmão mais velho que, mesmo dada a pequena diferença de três anos e meio entre nós, sempre se portou como se o tempo fosse infinito e tivesse obrigações paternas, responsabilidades que traz para si em um mundo que ele entende como real e palpável, enquanto sua irmã Sandrinha: “doesn’t believe everything she sees. Everything is an illusion”, ou seja, as diferenças entre eles (que somos nós) sempre tiveram embasamento filosófico, mas de forma prática. Biba – como carinhosamente sempre foi chamado na família – nasceu protetor, muito mais complexo do que pensa ser, cometendo muito menos “erros daqueles que se atribui à juventude” do que deveria ter cometido e sempre esteve ali posicionado para fazer o que melhor sabe: ajudar concretamente, resolver, ser o porto seguro. Foi a hotline muito antes da existência do termo.
Além de neta, filha, irmã, fui muito cedo a perfeita tradução do que é ser sobrinha ou afilhada muito além do cargo. Recebendo dengos de uma infinidade de tias maternas, vivenciei o significado do que é amar incondicionalmente um ser que não nasceu das suas entranhas, mas do seu peito, depois de gestar no coração. Tia Bb, tia Cassy, tia Rosa, tia Soninha, tia Rai. Daqui vem minha certeza de que o amor não é vermelho, pode ou não ser de sangue e ter sua cor, mas a gente tem o direito de amar por opção e isso é lindo, descomprometido, escolhido e sim – REAL.
Outros parentes foram pais – amantes meus, como “Soninha de Salvador”, aquela que a vida condenou a muito sofrimento, mas que se faz lembrada por todos os sorrisos que arrancou no seu caminho, e eu tenho o privilégio de ter vivido apaixonadamente amada por ela em uma recíproca absolutamente verdadeira.
Irmã de Deco, André, o caçula, sua existência foi marcada por dengos recebidos de todos os lados, criou um mundo do jeito que ele é, e seguiu dando amor e sendo amada, trazendo por onde passa um grau incrivelmente puro de razão de viver. E permanece assim, atravessando os anos e multiplicando minhas certezas mais saborosas perante a existência.
Fiz amigos na pré-escolha com quem compartilho vida até hoje. Fui líder de classe, oradora ou representante escolar em todas as turmas em que estudei de Itabuna–Bahia, a Alemanha, Inglaterra, or wherever eu tenha estudado. Boa aluna, ativa, parte integrante de todas as ações escolares ou extracurriculares. Pianista de formação aos 16 anos, dancei jazz, balé e passei meus anos adolescentes no teatro, entre palco e oficina.
Apaixonada pela arte de aprender e sem fronteiras que limitassem meus desejos, fiz curso de congelamento de alimentos aos 12 anos de idade (press the pause: verdade é que FOCO e estratégia sempre encontraram em mim um casamento perfeito. A mãe de um garoto que eu paquerava fazia parte do grupo de “congelamento“ e para conquistá-la e, consequentemente a ele – coisa que consegui –, iniciei o curso e o mesmo ainda foi aceito pela escola como atividade escolar, já que tive de pedir dispensa da mesma para frequentar as aulas de como se congela corretamente... Existe mais... o garoto em questão não era o boy realmente “desejado”, ele só parecia com o original, mas fazia parte da “estratégia” para a conquista do original e tudo acabou dando certo.
Por que começar pela mãe? Acredite, leitor profashional, amei muitas vezes, me apaixonei outras, mas nunca por alguém cuja mãe não fosse a referência maior para esse indivíduo, mesmo quando a referência era negativa, ainda assim sua aceitação sempre foi alvo total. E no mais é com Freud!. Estudei russo na época da Perestroika na cidade de Munique, História da Arte na Espanha no Museu de Salvador Dali (ele era vivo!), prestei serviço para empresas alemãs em diversos países africanos, estudei em Londres e por aí foi, o show sempre continuou...

 
Tenho melhor amiga que é “coleguinha” em tempo integral desde os 12 anos de idade, quando por iniciativa minha (reduzindo um tempo a um fato), ela veio morar comigo entre a casa de meus pais e minha avó. Às vezes distantes, outras mais perto, sempre estivemos juntas. Com 20 e poucos anos e cada uma de nós com um filho, voltamos a viver na vizinhança uma da outra, dessa vez na Alemanha. Criamos os filhos juntas de tal maneira que o resumo da ópera é: cada uma tem um filho, eles têm duas mães cada (ou por cabeça, como os alemães adoram dizer). Misturamos-nos, existimos simbioticamente, somos casadas com alemães, ambos chamados Mika e, atualmente, somos vizinhas no conceito “AtiBAIANO” de vida que em algum momento desenvolvi e me empolguei nele, nascendo mais uma grande paixão.

Casei duas vezes, gosto muito do meu primeiro marido e me separei dele a tempo de assim permanecer para sempre. Quando mais tarde encontrei meu grande amor e marido Mika, fizemos de toda a nossa história uma vida que dá certo. Então, filho meu nunca teve de escolher a quem dar presente no Dia dos Pais. Paga-se duas vezes na escola e, no dia de receber, a mãe vai com o marido e o ex-marido. Dona Flor ou não, os títulos alheios são meras piadas e devaneios. O filho foi sempre feliz em sua relação com a paternidade e pode desfrutar, desde os seis aninhos de idade, do prazer de ter dois pais, diferentes entre si, mas iguais no objetivo. Fazer os dias darem certo e ganharmos tempo ao invés de jogá-lo fora.
Fui mãe aos 21 anos e abracei os primeiros sinais de maturidade (se é que eles já não tinham se mostrado por aqui), tendo um filho que ama música, canta, toca, lê muito e ainda melhor: escreve! Mas é uma pessoa com suas próprias ideias e conceitos, trabalhando por suas próprias escolhas, o que me coloca na posição sofredora e feliz de tê-lo e não tê-lo. Amo nossas incríveis semelhanças na mesma proporção que as diferenças me atraem. É dono absoluto de sua própria alma.
Viajei muito. Vivi muitas aventuras – algumas engraçadíssimas, outras quase trágicas que se salvaram no quase como sair no melhor estilo James Bond com Indiana Jones em guerra civil africana. (Prometo ainda contar muitas histórias interessantíssimas, leitor profashional, mas hoje tive de fazer escolhas).
Divaguei e escrevi poeticamente aos pés do muro de Berlim e também estava lá quando ele caiu e levando páginas infindas dos livros de História que ele simbolizava. Viajei pela DDR, ou seja, conheci a Alemanha oriental, fui chefe de organização de viagens especiais e tive como cliente o então líder “soviético” Gorbatchov, assim como Helmut Kohl, responsável direta ou indiretamente pela reunificação alemã. Era o ano de 1989, e eu estava grávida, gerando em meu ventre que vivia história, o Kai, que viria a amá-la e ser um estudioso dela. Estava por lá quando os cartazes dos alemães desejosos pelo ocidente estampavam: “Melhor ter repolho do que não ter verdura”, repolho em alusão a Kohl, o citado chanceler da Alemanha ocidental na época.
Fui fã incondicional da princesa Diana, que deu ao contexto nobre, pela primeira vez, GRAÇA a essa condição. Princesa doce como um pêssego, que soube mostrar caroço duro ao sentir na pele as humilhações e sentimentos tão comuns a qualquer plebeia. Ela foi gente, foi mulher que usa seu poder, conquistou o mundo e morreu no pico de sua beleza, em momento que balançava os “normoides” de seu sistema por todo o globo. O símbolo Diana está longe de ser o da rainha dos corações. Ela veio, viu e sim: VENCEU! Um “anjo” mais para irônico do que comovente. Eu desisti, inclusive, de qualquer atitude mais radical que me levasse a virar um ser absolutamente especial por causa dela. Mulheres assim têm vida curta e Madre Tereza ou Irmã Dulce, que até viveram longamente, não são links conectáveis com meu perfil, apesar do grande apreço que tenho pelo trabalho de vida delas.
Enquanto os anos vêm e vão, sou perseguida por uma sensação de sentir algo que ninguém mais conhece, como se compactuasse com coisas do outro mundo, que para meu deleite vivem e se esparramam no meu.
Profissionalmente, depois de toda a liderança estudantil, dei continuidade ao status. Sempre fui chefe. Já no meu primeiro “emprego”, tive uma grande surpresa. Morava na Alemanha, e buscava um estágio na área de turismo de negócios, curso que eu então prestava em Munique. Fui indicada para uma entrevista, não tendo ido sem antes me informar detalhadamente sobre a nova área que estava sendo explorada por essa empresa, que era as viagens de extremo luxo feitas em “ônibus” que tinham “até elevador a bordo”, além de serem de dois andares, mas só contarem com 20 assentos, pois a ideia era a de conforto absoluto para aqueles que não queriam ou gostavam de voar. Além de poder fazer percursos não alcançados por voos (daqui vêm meus clientes como Gorbatchov). Lembrando que, em 1988, a Internet não era uma realidade, ser tão bem informada naquela época implicava em ir atrás de bibliotecas, fontes de jornais em aparelhos ultrapassados de busca, e por aí vai. Dando mais uma de alemã: “papo longo, sentido curto”. Fui, falei, troquei ideia, me meti em uma empreitada de investimentos que estava prestes a ser feita pelos donos, e que foi alterada com sucesso, tendo início por meio das minhas afirmações bem embasadas. Enfim, sabia do que estava falando com meu pouco menos de 20 aninhos. Fim de caso. Os donos mandaram que eu começasse a trabalhar no dia seguinte e me apresentaram à “minha equipe”. Quando fui questionar quem era a minha chefe direta, eles disseram: somos nós mesmos e estamos também procurando uma estagiária que deve te auxiliar... Só então percebi que nunca tínhamos conversado a respeito do cargo para o qual eu estava me apresentando. Não abri currículo algum (nunca consegui fazer isso em toda a minha vida profissional...) e apesar de eu ter passado mal e ter ficado em estado de pânico, assim que fechei a porta da empresa, tinha certeza de que a velha frase: “Sem saber que era impossível, fui lá e fiz”, é verdadeira. Fui, fiz e foi um sucesso e satisfação para todos os envolvidos.
Assim se sucederam todos os outros trabalhos que tive: como se fosse programado. Entrava para fazer uma coisa, via que não era assim que devia funcionar, sem papas na língua e com muita perseverança e paixão, conversava, discutia, lutava pelos negócios que eu defendia e os jobs, que muitas vezes nem existiam, viravam meus. Era minha intenção? Não, de fato nunca foi. Sempre fluiu tudo naturalmente como as correntezas que sabem onde estão o mar e vão com firmeza até ele.
Peguei infinitas vezes carona em táxi – e isso simbolicamente justifica a máxima de alguns amigos que “sempre dei nó em éter”, sou amiga íntima de presidente de Estado, primeiro ministro e até de um ou outro príncipe. Isso nunca mudou minha vida. Ganhei uma linda torre que é portão de entrada de cidade histórica (um devaneio de adolescente, que se fez real) de presente de um então grande amor, com direito ao tráfego fluvial da área, mas me recusei a ficar com ele, a tomar posse dele. Não era eu a Rapunzel daquela torre, e nem a pessoa que gostaria de viver a realidade dos impostos em todos os sentidos. Contos, passagens, histórias boas de lembrar ou de ser lembrada por elas.
Fiz amigos, o tempo levou alguns (que ainda não desisti de reencontrá-los por aqui ou por lá), o que vivemos é de todos nós. Viajei da Alemanha a Ibiza (Espanha), em uma fantástica viagem de primeira classe de trem com 18 aninhos de idade e todos os adereços de luxo e extravagâncias que, na verdade, não fazem parte de uma trip de jovem estudante. Vou recordar...

Costumava me sentar em um café chiquérrimo e ao mesmo tempo alternativo (o que hoje eu chamaria de conceitual) quando saía da faculdade, nas proximidades do English Garten em Munique, mais precisamente para os conhecedores, na Leopoldstrasse, que ainda hoje é uma referência para ver e ser vista na cidade. Sentava-me sozinha tentando ler os livros que sempre sonhei – no original, em alemão, claro. E pedia um ponche quente de champagne com pêssegos. Uma taça e pronto, era para o que a mesada dava (troquei muitas vezes o almoço para poder manter este momento). Saboreava-a na mesma medida que degustava cada palavra que eu aprendia, cada frase que de repente ganhava sentido naquele idioma que sempre amei sem saber por que, como afinal todo grande amor verdadeiramente é.
Numa certa feita (humm, isso soou velho agora... mas vou deixar), registrei a presença de um cara bonito, estiloso, com seus trinta e tantos aninhos que claramente tinha algum handicap físico, pois se locomovia com dificuldade, logo imaginei que devia ser uma sequela de acidente. Mais do que isso, naquele momento, apertei o botão de retorno de meu filme mental e percebi que sempre o via ali e que ele sempre estava me observando com um olhar indecifrável; eu não conseguia organizar o que aquela observação queria dizer e ele veio e claramente me disse! Condenado por uma forma rara de esclerose múltipla, mostrou-me a plaquinha de ouro da Cruz vermelha que levava no peito, desautorizando o socorro de fazê-lo reviver caso viesse a ter uma crise e permanecesse inconsciente. Ele não queria vegetar e tinha ganho o direito para isso em poder pleno de sua consciência.
Arquiteto de sucesso, rico, curtidor da vida, decidiu que a forma que ainda teria de se sentir feliz era transferindo esse poder a alguém que o conferisse a certeza de poder fazê-lo em sua plenitude. Propôs então, depois de se assegurar que eu teria tempo e disponibilidade para realizar seu sonho, que eu fizesse a viagem que ele mais amava fazer, saindo de Munique indo para Baden-Baden, Suíça, depois Genova na Itália, Barcelona e de lá de navio para Ibiza, onde ele tinha um belo apartamento vazio no qual eu poderia ficar, além de muitos amigos que me mostrariam a ilha e os lugares que eu não poderia jamais deixar de visitar. Antes disso, eu poderia dizer quais eram meus sonhos de consumo e diversão em Munique, pois isso poderíamos fazer juntos e ele me conheceria um pouco mais, decifrando em minhas atitudes o que me leva a gargalhar, sorrir, ou o que quero dizer quando não digo algo.
Aprendeu a conhecer minha forma de expressar sentimento para que ele pudesse melhor sentir a história quando ela só fosse contada, pois a proposta era a seguinte: ele me daria tudo o que foi citado acima (e a verdade foi bem maior do que estou descrevendo, o que daria um livro e não um artigo) e eu só teria a obrigação de relatar tudo por cartas, cartões e telefonemas. Não existia Internet, leitor profashional, muito menos redes sociais, ou álbuns eletrônicos. Dizer e se fazer sentir era coisa que a palavra tinha de fazer quase sozinha. Quando questionei o óbvio: Por que eu? A resposta foi muito simples, porque você sente tão intensamente que se alimenta disso e te sobra ainda muito para distribuir e preciso do que você tem a distribuir. E tudo isso foi descoberto com os simples olhares entre meus livros e meu impagável ponche de pêssego. O moço queria viver outra vez e não teve pudor, nem apego ao se entregar a possibilidade de desfrutar por intermédio do outro. Entendi rápido, pois consegui me colocar facilmente em seu lugar e a lição só fez corroborar com o que a menina – eu pensava.

O tempo que aqui se confunde, mais uma vez passou, a Alemanha aconteceu em minha vida, assim como tantos outros momentos mostrados aqui. Em algum lugar do passado, conheci pouco tempo depois de separada do Frank que é pai de Kai, o Mika, meu marido, amigo e principalmente cúmplice. Conhecê-lo foi mais uma forma de acreditar no tempo, ou melhor, de não levá-lo tão a sério, e mais uma vez os astros se posicionaram de maneira profashional.
Uma vizinha, na cidade de Friedberg onde então vivíamos Kai e eu sob os cuidados de Dio – aquela amiga que assim o é desde os 12 anos de idade e que hoje é atiBAIANA –, mostrou-me durante um inocente café da tarde em sua casa a foto do seu ex-marido. Bem na foto, ele e seu melhor amigo estavam nus, de costas e “plantando bananeira”, o que não escondia os músculos bem torneados, equilíbrio além de outros pontos óbvios e positivos no conjunto. No mesmo espírito da foto, comuniquei à dona da casa que eu queria aquele bumbum à direita, e ele era o Michael, pai do seu filho e ex-marido da pessoa. Piadinhas à parte, a moça, para potencializar a situação e claro valorizar suas escolhas, me mostrou mais duas fotos: numa delas o Mika estava nu na banheira agora de frente, com um sapinho cobrindo as partes íntimas e, numa outra, tinha o pé de uma mulher cobrindo o que não era para ser mostrado, mas deixava exposta uma barriga bem interessante de jogador de handball, que dava para ser usada em longas lavagens de roupas à mão. Ou seja, naquele momento, o instrumento para uma boa dona de casa estava assim por dizer em promoção.
Para completar, ele estava sozinho depois de um relacionamento complicado e só queria ser feliz (adoro o povo que quer ser feliz!). Passou o assunto. Mas o aniversário do filho dele foi a ocasião propícia para o grande encontro (que não relatarei aqui! A surpresa, a curiosidade e a fantasia são sempre elementos para cortar a previsibilidade). E praticamente vivemos juntos desde esse dia, simplesmente assim. Meu marido disse logo depois que nos conhecemos que namoradas, esposas pode se ter muitas pela vida, mas tem de saber quando a sua mulher chegou e eu tinha chegado.
Costumo dizer que meu cartão de visita é entre outros minha ex-sogra, que teve um derrame e veio a falecer já sendo minha “ex”, durante uma aula de português que ela estudava desde quando me conheceu. Estava pronta para vir passar férias com minha família (Kai, Mika, eu, meus pais e, claro, seu filho Frank) e de passagem comprada. Deixou em testamento todos os bens possíveis de serem disponíveis para mim, pois afirmava que, estando comigo, seria de todos nós e também seu filho – meu ex-marido – estaria sempre abrigado ao meu lado. Louise era filha de outra Louise, a Oma que nos ensinou as dores da perda e da guerra e nunca deixou de contar histórias e nos abraçar sorrindo, mostrando o quanto o amor está além da vida e dos percalços dela.
A Alemanha virou São Paulo e o tempo mais uma vez gerou e geriu histórias com meus personagens reais (?!). Meus afilhados nasceram e eu transito no amor deles e os fiz meus com ou sem laços vermelhos. A última delas, Maria Fernanda, nasceu num dia colorido que ventava,e já disse Mario Quintana que “a maior dor do vento é não ser colorido”. Sou amante do vento e das cores, e ela veio completa. Sou dinda de Clara, filha de Laís, amiga que o tempo levou enquanto ela tencionava chegar e que, por isso, passaremos a vida esperando por ela. Sou dinda de Marquinho, filho de Deco, irmão que me convenceu a trocar minha vida na Alemanha por uma estada em São Paulo, com uma resposta que nunca foi dada. Cantou ao telefone: “Tu que andas pelo mundo, tu que tanto já voou, tu que encantas os passarinhos, alivia minha dor, tem pena d’Eu” e, naquele momento, a dor dele era profunda e eu segui o fluxo dos passarinhos. Marquinho foi minha fantasia de que a vida vai dar certo, pois tinha de dar, enquanto confundia a casa da dinda em São Paulo com a Alemanha; Maria Fernanda hoje confunde Atibaia com a casa de sua dinda (ou seja, pode estar do lado de fora de casa e dizer vamos logo para Atibaia ver Pitanga, o que significa, vamos para a casa de Nini. Eu, a dinda, aquela que se chama tão Nini quanto a própria Maria Fernanda). Na minha infância, confundíamos a casa dos nossos sonhos na cidade natal de meus pais, Santa Inês, com a própria cidade. E a vida é cíclica, só a gente muda às vezes de lado nesse ciclo.
Gabriel (filho de Biba) é amor de conquista, é personalidade talhada por ele mesmo. Felipe é filho de Melo e Carlinhos, de amigos que foram passando pela vida e ficando às suas maneiras – na minha. Dani é filho que se fez afilhado para ter cargo que ele nunca precisaria – já que é filho nascido diretamente do meu coração e alma, mas registra isso com prazer, o que o faz mais uma vez mais parecido comigo do que com a mãe Dio, de quem saiu da barriga. Ceci, Rafinha longe – tão perto de mim, misto de fantasia e vontade de ser parte. Batismo de quase ser, coração inteiro.
Amo cunhadas como quem ama a melhor amiga. Chicho, que entrou em mim para não sair mais, briga, esperneia, comemora e ama “como se nunca tivesse pensado no assunto”. Ciça, que coça meu pé, borrifa alfazema no ar para espantar mal olhado de perto de mim e declara sua paixão pela cunhada ao mundo! Denga, alisa, beija, compactua. Rafa, Giu e eu entre o espelho deles, criamos personagens, vivemos a vida deles, entramos no mundo que é roda e gira em sua parte mais dura e prática, mas nos sabemos acima disso e assumimos que a felicidade do outro está além do que se pode contar. Aninha que não mensura quem ama, Mariquinha que é Valdira e que é parte sem estar. Mas não quero citar amigos, aqui entraram os que minha mente borrou. Pecaria pela omissão, assim como não citei nada nem ninguém por mera importância real em minha vida. Todos aqui caíram na frase e surgiram delas.
Já no estado de Brasil e no pior dia da minha vida, pedi a Deus e sua representação de mundo: TEMPO! Para viver tudo o que ainda estaria por vir se eu o tivesse. Ouvida e assistida, o Tempo foi a carona de continuidade que pedi e, por isso, não pretendo chegar a lugar nenhum, estou sempre a tempo de viver o que está por vir. Estou na estrada. Meu mundo hoje tem nome bonito e registrado, respondendo quando solicitado (ou não) por Profashional. Faça parte dele comigo e se entregue numa grande caminhada que, de preferência, não terá chegada. Estaremos assim sempre vivos e cheios da matéria de nossos sonhos reais e possíveis, afinal “Reality is Just a matter of point of view”.
A capa desta edição de sete anos, o Ronaldo que ama o interno e expressa na roupa que, porém, pode ter um forro mais nobre do que a estampa. Sua modelo que não tem rosto, nossos rostos que são modelos e correntes que unem nossas igualdades e diferenças sem começos, meios ou fins. Palavras de gente que uma vez tendo sido profashional, nunca deixou de sentir o não óbvio. Gente que vive e que interpreta à sua maneira. Sentido subvertido, blogs, redes sociais, gente, cores, imagens, o mundo correndo e a gente atrás dele, buscando conselho no Tempo, sem deixar de saborear os pêssegos. Saudades. Alegria por todo novo dia.

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.” (Clarice Lispector)

Abraço contínuo e de preferência tocante,

Sandra Teschner













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