revista profashional

Pano pra Manga - por Sandra Teschner
 

"Eu (minha personagem) criada
pelo querido amigo Hélio
Senatore, já prevendo a existência
de uma “Pronta”. Estoriando
a vida de Maria Fernanda antes
mesmo dela nascer. Coisa de uma
“Pronta” para outra"


 

 

Quando indagada pelo pai sobre o porquê de determinadas atitudes suas, a pequena personalidade não teve dúvidas: explicou de maneira coerente seus motivos. Diante da insistência paterna, porém, em não aceitar os argumentos da mocinha, a mesma resolveu finalizar a discussão: “Eu sou assim. Esta é a minha condição”. Com 3 aninhos de vida e ainda muitos meses pela frente até que possa contar quatro anos, Nini, como por sinal nós carinhosamente nos tratamos, independente do fato de sabermos que nossos nomes em nada rimam com esta espontânea tradução, é a prova concreta de que sim! Nascemos pessoas (com pessoalidades) quase “prontas” (e aí os cientistas que discutam as proporções e eu abaixo divagarei despretensiosamente sobre elas), e algumas dessas pessoas nascem sabendo que o são, ou seja, que nasceram “prontas”, portanto, terão seus caminhos provavelmente mais determinados por suas vontades e crenças do que pelo meio ambiente. Longe de mim negar a já comprovadíssima influência da família, dos amigos, da escola, do mundo à nossa volta na formação do ser. Mas como ninguém é igual, mas alguns são mais iguais a alguns, do que outros a outros; essa menina é um exemplo de quem sabe a que veio.

Amo quem faz naturalmente suas escolhas. Amo a capacidade de entendermos quem somos, independente do tempo, do lugar ou da situação exata em que nos encontramos, amo a capacidade inata de acreditar em algo, de amar, de querer, de ter suas predileções e de responder ao tempo com voz altiva que não só ele sabe passar, a gente há de aprender também, mas enquanto ele vai deixando pra trás, nós vamos em busca das novas paixões (ouçam “Resposta ao Tempo” na voz de Nana Caymmi e sentirão exatamente do que estou falando) e embora pareça que ele então se porta como um inimigo, é fiel, é senhor dos anos, pois nos presenteia, nos entrega o seu próprio sentido e aí, com ele, a gente amadurece, aprende a recordar nossos amores, a valorizar o que de fato nos é caro. Éramos verdes, mas já éramos nós. Mas quanto desse padrão de comportamento, que no parágrafo anterior afirmo amar, pode de fato ser mensurado como parte intrínseca do ser, como resultado genético, antes de assumir – por exemplo – a posição a que Nitzsche nos instigava: “Torna-te quem tu és!” Quem?, aquele que não aprendeu, tem nas entranhas, deu a condição de ser antes de vivenciar – como no caso da pequena Maria Fernanda – ou aquele que a vida só o dá por pronto, depois de todas as interferências na sua formação? A resposta fica ainda em aberto a um padrão de comportamento humano porque, para aqueles que “já nascem excepcionalmente prontos” os caminhos que se vão trilhar, ou as escolhas a serem feitas serão sempre revertidas em prol dessa linha condutora visceral. Sei que é assim, reconheço imediatamente a diferença quando me deparo com um ser que veio arrematado, daquele que o tempo e os caminhos terão mais poder na forma como respondem à própria vida. Correndo o risco de ser repetitiva, volto a falar na peça de teatro e livro de Sartre (já citado em meu “Script”) “Entre quatro paredes”, onde o inferno são os outros, porque, na falta de espelho (característica atribuída à vida infernal), você só se vê refletida nos olhos de alguém, ou seja, como o outro nos vê, determina o que enxergaremos de nós mesmos e isso, seguindo o pensamento do existencialista, é uma situação intragável, insuportável, infernal. Quão determinista é então o que somos? Nossa personalidade e suas ver tentes são como nós a vemos ou sentimos, ou como os outros a veem? Serei drástica! Adoro quando me vejo nos olhos dos outros, me vejo assim também, posso até dispensar o espelho e ainda estaria num céu. Por quê? Talvez porque não viva cercada de espelho distorcido, ou porque me encaixo bem como a Nini num pacote que foi entregue com um lacinho dizendo, pode ir para o próximo, esta aqui nasceu “pronta”, já sabe o que quer. Provavelmente, por isso escolho, repito ESCOLHO as pessoas que dividem meus dias pela “alma lavada e pela cara exposta” – o melhor reflexo vem na estrutura limpa e adoro o que vejo refletido nele, no melhor estilo Oscar Wilde:

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer,
mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e
peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que
nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me
esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

Nao sei se os fatores hoje bem aceitos pela psicologia geral, como abertura, afabilidade, consciência, extroversão e neuroticismo (... sobre os significados de cada um, vocês podem ler à vontade em livros ou pela Internet, leitor profashional), são suficientes para agrupar os seres humanos normais; mas sei que os prontos têm matéria e espírito viajando muito além da objetividade dos que procuram definir a personalidade de alguém. Maria Fernanda, ou Nini, considera- se “namorada” de um certo garotinho (cujo nome será mantido em sigilo para preservar a individualidade do casal) desde que tinha seus dois aninhos. O pai, mais uma vez “chocado” com as afirmações da pequena, respondeu que ela ainda não podia namorar, ao que a mesma retrucou a proibição: “Não preciso de você para namorar papai, eu namoro sozinha”. Um ano depois, o suposto “namorado” confessou, numa festinha infantil, que namorava na verdade uma outra. Maria Fernanda não reagiu! Ouviu e desprezou o que tinha ouvido. Como dinda, fã, ser da turma dos prontos, esperei um tempo e questionei-a sobre a situação dela namorar alguém que dizia ter uma outra, ao que ela mais ariana do que nunca merespondeu: “Ele é um sujeito melequento, que não toma banho e anda pelado pela casa”. Pronto, liberou sua raiva contida. Numa próxima oportunidade, em que toda a família estava reunida, ela simplesmente percebeu que se tocaria no assunto de novo e, antes mesmo de termos dito uma palavra sequer, foi logo finalizando o que nem tinha começado: EU SOU A PRIMEIRA, É ISSO AÍ E JÁ ERA. TÁ “PRONTA” OU QUEREM MAIS?

 













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