| Pano pra Manga - por Kai Hrebabetzky |
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Brasil, meu Brasil brasileiro
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Nesta edição, foi conferida a mim a honra de escrever este Pano pra Manga. Até hoje, esta seção esteve reservada à minha mãe e chefe Sandra Teschner, que decidiu ceder me ao menos uma chance de exibir o meu texto nesta parte tão importante da revista. Eu nasci na Alemanha, país que adoro, e, sempre que posso, vou visitá-lo, mas decidi escrever sobre a nação à qual realmente me apeguei, e da qual não canso de sentir orgulho, independentemente do que aconteça. “E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra.” – Pero Vaz de Caminha Foi nesse momento, debaixo de um céu azul e sobre um mar de igual cor, que o mundo abriu os olhos pela primeira vez a sua eterna amante: O Brasil, nome que lhe foi concedido por causa de uma árvore, a qual, por sua vez, teve seu nome dado por conta do líquido cor de brasa que corria em seu interior. O porto seguro acolheu os primeiros a adentrarem aos seus encantos, então ainda desconhecidos, advindos da terra que é paraíso, e do paraíso que mora em terra. Nesse tão lindo e formoso lugar, terra e paraíso freqüentemente se confundem, e fundem-se até tornarem-se sinônimos. Não caro leitor, nada é perfeito, graças a Deus, pois a única coisa que sei sobre perfeição, é o quanto a mesma pode ser sem graça. Já foste tu, aos Lençóis Maranhenses, à infinita Amazônia ou então à Bahia? Ah! A Bahia, a Bahia que não me sai do pensamento, não deve haver terra sob este Sol dourado que nos acorda a cada manhã (às vezes escondido, mas sempre presente) que lave a minha alma como a Bahia.
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Para Goethe, o maior dos suplícios seria estar sozinho no Paraíso, mas digo-te, e creio que tanto sabes disso, que jamais estarás sozinho no Brasil, arriscome a dizer que se criticássemos menos e vivêssemos mais, então, neste lugar tocado por Deus e abençoado pelo seu povo, nos tornaríamos não mais um país com fronteiras terrenas e tãohumanas, tão comuns aos seus feitios de querer dividir e tomar sua parte, não seríamos mais uma economia em ascensão, uma nação em desenvolvimento, um participante da ONU, um recente país de primeiro mundo. Não. Seríamos ricos, mesmo sem dinheiro, lindos mesmo nas feições mais rudes, livres em todo e qualquer lugar e aspecto. Nós nos tornaríamos o que somos. Brasileiros. Mesmo que nascidos em terras distantes, tornamo-nos brasileiros, assim que pisamos no primeiro grão de areia branca, vemos a primeira palmeira, mas, principalmente, quando pela primeira vez conhecemos outro brasileiro, pois ele e tantos outros que são ou serão brasileiros serão nossoeterno antídoto para o grande medo de Goethe.
E se para alguém há de parecer delírio referir-me desta forma a esta terra abençoada, então digo-lhe que as coisas estão muitas vezes mais próximas do que parecem, sim leitor, basta levantar a cabeça e abrir os olhos, e se ao fazer isso você vir uma cidade cinza e ouvir barulho, então olhe de novo e repare que é o cinza mais colorido que já houve, e o barulho mais bonito que já existiu, e lembre-se de que sorte você tem de estar no Brasil. Não tenho ainda lembrança de alguém que tenha realmente partido do Brasil. Pois, assim que se vai, percebe-se que se deixou tudo no Brasil, mesmo
que se tenha levado tudo consigo.
E por mais que não se volte mais à tão bela terra, a verdade é que nunca se saiu do Brasil, afinal, esta terra tem e abrir os olhos, e se ao fazer isso você vir uma cidade cinzae ouvir barulho, entãoolhe de novo e repare que é o cinza mais colorido que já houve, e palmeiras onde canta o sabiá. E mudando ligeiramente a frase, porém, não o sentido: Morar no exterior é bom, mas é horrível, morar no Brasil é horrível, mas é maravilhoso. E que o povo deste País de europeus, negros, japoneses e italianos, de amantes e amores, felicidades e tristezas, do tropical, subtropical, caatinga, do mar, da selva, da fauna e da flora, do verde, do azul e do amarelo, e principalmente do brasileiro, jamais deixem de ser o que são e de representar o que representam: A felicidade de viver em seu mais vasto sentido. “Nesse dia, enquanto [os índios] ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus.” – Pero Vaz de Caminha Aos Brasileiros com muito carinho e admiração.
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