| Pano pra Manga - por Sandra Teschner |
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“Adoro as coisas simples.
Elas são o último refúgio
de um espírito complexo”
(Oscar Wilde)
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De volta ao começo. Essa é a sensação que tenho quando vejo a busca pelas raízes, pelo original tão em voga em tempos de agora. Nomeia-se essa corrente com pseudônimos que revelam o novo dentro dos velhos e bons costumes. Regionais, familiares, pessoais. A Quinta Onda é, por exemplo, a nomenclatura encontrada para traduzir essa tendência na área alimentar. Parece que houve uma distribuição em massa de óculos com tecnologia de ponta, a fim de que se enxerguem em todas as proporções os detalhes, os quais nos pareçam ricos, significativos para que possamos amá-los. Podemos também – numa visão simplista– dizer que estamos vivenciando nada mais do que o ciclo natural da vida com seus pesos e medidas, enquanto a roda gira e novas variações das mesmas determinantes vão ganhando valor. Mas vamos combinar que isso seria aceitação óbvia demais e do óbvio tenho cá meus (pós)conceitos. Pós porque não tolero bem preconceito, então já experimentei o meio da coisa, para saber que, mesmo após a experiência desse teste, meu dissabor teve continuidade. Talvez por isso, dentro ou fora de um ciclo, eu sempre tenha valorizado o essencial. Sim, aquilo que é o DNA de ser! Percebera natureza das coisas pode transformar sua vida num caminho de tempo mais verdadeiro.
Descobrir significados, dar vida ao que parecida inanimado, valorizar nas reações humanas, aquelas que antes seriam consideradas meramente um reflexo, como se agíssemos respondendo ao martelinho que o médico bate no joelho. Não sou zen, melhor exposto ainda, sou muito menos do que me caberia ser, não faço yôga, não sou budista, não bebo chá, mas não
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posso sem observação as lições que a natureza nos ensina simplesmente ao seguirem seu curso: “Aprendi com a primavera a me deixar podar, para poder voltar sempre inteira”, nos ensina Cecília Meireles que sem dúvida doou momentos de sua atenção à essência do que acontece a seu redor. Época de presentear e ser presenteado, afinal o Natal, seja lá qual for a sua crença, remete
a uma festa de família, em que alguns muitos celebram o nascimento de alguém, o qual fez tal diferença no mundo que o ano em que nos encontramos é guiado pelo fato de ser antes ou depois dele. Ou seja, é incontestável que com um simples menino chamado Jesus nasceu uma nova era, uma nova vida, e enxergar isto é também uma maneira humana de respeitar a esperança, seguindo ou não uma religião vigente. Presente para mim tem de ser simbólico, tem de ter valor e este vem do que ele representa para quem está me dando ou dentro do contexto de quem sou. Adoro dedais, por exemplo. Coleciono-os como conseqüência do fato de tê-los em quantidade e quase todos terem chegado até minhas mãos pelo ato de presentear de algum amigo, o que significa também que vivo com pessoas ligadas nos símbolos e em sua representatividade.
Adoro presentes caros também, como adoro presentes baratos, adoro presentes de “alto valor agregado” para falar a língua que se entende, o simples não é sinônimo de menos nobre, isto seria reduzir um conceito tão maior às velhas questões separatistas de castas, e deste passo longe. Encanto-me com um pequeno dedal “provavelmente” (permaneço firme à procura da verdade, mas contento-me por enquanto com minhas buscas) porque sou neta de costureira. Sou filha da filha de dona Conceição, com quem vivi minha primeira infância, e que com seu imenso amor pela família “costurava para fora”, a fim de ajudar no orçamento doméstico, e costurava para dentro, a fim de vestir filhas e netos que careciam daquelas roupas feitas com mimos, detalhes e muita fantasia, fazendo da vestimenta um objeto de prazer pleno.
Escrevo este meu “Pano” em Olivença, na Bahia, sentada com o laptop do lado dela que cantarola enquanto vai fazendo “fuxico” (o recorte do tecido é medido por ela com a boca de um copo, ao qual circula com um lápis, e depois recorta um por um, costurando o seu meio de maneira absurdamente simétrica) de uma colcha que irá em breve para minha casa em Atibaia. Dona Conceição Moraes tem 93 anos e, em 2008, resolveu ser adepta de uma alimentação mais saudável (a Quinta Onda já citada), pois não ficou satisfeita ao saber que o resultado de seu último check-up foi muito bom, mas seu colesterol andava meio alto. Foi o bastante para dizer que mudaria de vida, e mudou. Sabe o nome que isso tem? Simplicidade. O “novo luxo” também vem sendo interpretado por alguns como uma viagem à originalidade. As obras de nossos artesãos vêm ganhando poder e preço (espero que este resultado prático chegue até eles e não fique na esfera de que é moda e transita pela mão de alguns poucos compradores e vendedores, mas este é outro tema...), comer a comidinha caipira daquele restaurante bem humilde, mas com panelas “areadas” com Bom Bril vem caindo no gosto de chiques, tudo numa corrente incessante de direito a ser gente de novo, de reaprender a ser. Dou esporadicamente algumas palestras em faculdades e, quando perguntada sobre o que para mim seria o novo luxo, respondo coisas como levar sua paçoca confortavelmente em sua bolsa Prada ou seu Chocolat du Jour numa sacola de capim dourado. Não é luxo algum para mim banir a qualidade das marcas que fizeram por merecer, é ter glamour e glamour tem tudo a ver com estar bem, estar bacana, estar em dia com você. Nada é mais chique do que a autenticidade mais simples.
Adoro feijão com arroz, cheiro de terra molhada, vento, o estilo das bolsas Prada, a costura interna da Louis Vuitton, o monograma da Gucci. Adoro as roupas do Ronaldo Fraga que nem sempre me deixam mais sensual, mas me emaranham de estórias que ele contou e, vestindo-as, eu as assimilo. Adoro sarapatel, mas tenho receio quanto à procedência dos ingredientes, então é amor, mas em silêncio. Adoro sapatos, mas os mais estilosos guardo como se fossem esculturas que admiro diariamente, pois nos meus pés prefiro o conforto do meu Piccadilly, que me faz esquecer de que estou calçada e eu amo andar descalça! Adoro amar e ser amada, não vivo o ciúme, me educo contra
ele em todos os dias da minha vida, não gosto de ser possuída e controlada e não gosto de exigir do outro o que não seria capaz de dar também. Adoro t e r meu filho, com suas características que se assemelham às minhas e suas tantas outras razões que não parecem com as de ninguém. Adoro amar meu próprio marido e adoro ser amada por ele e adoro a compreensão ecumplicidade que nos une. Adoro ser filha de cantador com professora de literatura, adoro ser neta de quem sou, adoro cada um dos meus afilhados que me lembram todos os dias que tive todos os filhos que nunca sonhei em ter. Adoro minhas tias, irmãs de minha mãe que cercaram minha infância, adolescência e estão
sempre por perto quando se deseja ter alguém para se chamar de tia.
Adoro ter irmãos e cada um à sua maneira fazendo parte de mim. Adoro minhas cunhadas que terceiros nos confundem como irmãs, mesmo não parecendofisicamente, a química entre nós escancara o que sentimos, traduzindo em semelhança. Adoro Coca Light, Neosaldina (contra enxaqueca), pão de milho sem manteiga e com queijo mussarela. Adoro Nini que é conceito puro dentro de um mundo que é só meu. Adoro café (forte!), xícaras, artefatos que lembram o mundo cheio dele. Adoro roupa “homewear” (descobriram um nome para minha paixão). Adoro séries como “House“, “Sex in The City“, “Lipstick Jungle“, “Greys Anatomy“ e meu novo affair chama-se “Life“. Adoro sofá, laptop que funciona sem me pedir muita senha e sem me deixar esperar, aí se não for pedir demais que ele seja vermelho e o meu – é! Adoro Olivença, Atibaia, Augsburg (Alemanha), Antígua (Guatemala), Ilha do Fogo (Cabo Verde), Costa Rica (quase qualquerlugar), Bluehole (Belize),
Poço Encantado (Chapada Diamantina), Jericoacoara, Santorini (Grécia). Adoro amigos e suas histórias e a aceitação deles de que passaram por uma seleção natural para chegarem ao posto que ocupam em meu coração. Adoro gente que ama com os olhos, mesmo quando limitados pelos scripts da vida. Adoro quem sai do roteiro, mas o faz por convicção, a mesma que terão para segui-lo de novo se a vida assim pedir. Adoro abará com salada, água de coco, salada de bacalhau com batata doce. Adoro a torta de tangerina de Pat. Adoro batepapo com gente que adoro. Adoro ter sempre um amor guardado no peito. Adoro ser amiga de Dio. Adoro viajar, mas não gosto de partir, sou feita de chegadas constantes. Adoro doce de leite, ambrosia feita com pouco açúcar e um pouco queimada. Adoro a Profashional e profashionais. Adoro Pitanga , minha tartaruga grega nascida na Alemanha com atestado e passaporte de direito a tê-la. Adoro aquele bibelô que foi da tia, das avós do irmão de alguém que o comprou numa feirinha na primeira viagem que fez sei lá para onde e vem sendo passado de geração em geração.
Adoro música que me tira do chão, som de piano, palavras bem escritas e depois lidas com maestria. Adoro gente que faz acontecer. Adoro damasco fresco, pinha e até a híbrida atemóia. E por continuação, adoro ser alguém cuja ordem dos fatores não altera o produto. Adoro a desordem dos pensamentos livres seguindo a ordem mais simples e natural da vida. Adoro simplesmente ser alguém capaz de adorar.
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