revista profashional

Pano pra Manga - por Sandra Teschner
 

“Quero sua risada mais gostosa
Esse seu jeito de achar
Que a vida pode ser
maravilhosa”

(Ivan Lins)


 

 

Estávamos em meados dos anos 1980, ou dos eighties, como carinhosamente lembro a década de minha adolescência, quando o meu irmão caçula, Deco, contava aos quatro cantos que a música “Vitoriosa”, de Ivan Lins, era totalmente a minha cara. Se por um lado eu amava me imaginar essa mulher vencedora em dimensões tão amplas, por outro, a estrofe, que segue o título desse meu Pano pra Manga, me deixava uma pitada desconsertada: “Quero sua alegria escandalosa Vitoriosa por não ter Vergonha de aprender como se goza” Afinal “naquela época”, com meus 12 aninhos, esse não era assim um tema que eu quisesse discutir, menos ainda com o meu irmãozinho quatro anos mais novo do que eu. Para completar a cena teatral, ele cantava o gozaaaaaaaa com uma sonoridade que em nada ajudava a situação. Mas não vou negar que os benefícios dos atributos da “Vitoriosa” logo me fizeram passar por cima desse “detalhe” e me assumi com muita propriedade no personagem.

Direta ou indiretamente, aquele foi um tempo em que se formara uma musculatura (como diria meu amigo Giuliano Donini) muito própria da pessoa que eu me tornaria ou que se moldava em mim. Talvez esse fato tenha só antecipado a minha “vontade de passar dos meus limites”. Bem como, leitora assídua de Oscar Wilde, lembraria constantemente que:
“moderação é uma coisa fatal (...). Nada tem mais sucesso do que o excesso”.

Somos filhos de uma família cantante. Sem tradição alguma de palcos ou carreiras musicais, mas uma família para a qual a música marcou cada pedacinho da história. Há algumas edições (Profashional 66), meu irmão mais velho, Gabriel, deu prova disso ao descrever um show atual de Guilherme Arantes. Somos marcados pela música. Minha mãe ama os textos, meu pai, a música que os torna canção, além da entonação impecável da qual se orgulha, e nunca se esquece de frisar que aos filhos deu tudo, mas uma coisa guardou só para si: a voz. Lembro-me de “Cajueiro velho vergado sem folhas, sem frutos, sem flores, sem vida afinal”, ou do “bate-papo e do disse-me-disse lá no café Nice, aí que saudade me dá!”. E quando viajávamos, se passássemos por um determinado local, inevitavelmente cantaríamos que “eu me vingo dela tocando viola de papo pro ar”. Adeus sempre foram “cinco letras que choram” e “Branca era linda, um primor de amor, saudade que ficou”. Com cinco anos, eu já tinha aulas de piano e, no meu tempo, fui uma das mais jovens formadas em música na Bahia. Teatro e poesia também foram uma constante dentro de uma escola tradicional católica que, paradoxalmente às tradições, escancarava a arte de frente e permitia tirar dela o indivíduo que éramos e queríamos ser. “O caminho dos paradoxos é o caminho da verdade” (Oscar Wilde). Era o colégio Ação Fraternal – em Itabuna – terra também de Jorge Amado. Minha avó, hoje com 93 anos, cantarola, chora e ri, enquanto recorda as canções que a acompanham e vai vivendo e cantando mais, criando novas recordações para os que estão junto dela. Com 17 anos, perdi para as estrelas uma irmã gêmea de alma, tia materna que se foi com apenas 33 anos. A última coisa que fizemos juntas, nas noites que anteciparam sua partida, foi passar a limpo poesias (minhas e dela), além de eu ter tocado muito piano para seu deleite, enquanto ela me ensinava a cantar uma cantiga infantil em francês.
Imprescindível contar também que há certa feita das vidas – então já maduras – a minha e do meu irmão caçula, eu vivia na Alemanha e ele estava em São Paulo, vivendo o maior desafio que já enfrentara, quando tive a oportunidade de voltar a morar no Brasil e coincidentemente na mesma cidade que ele. Foi então que eu questionei suaopinião sobre ficar ou partir, já que voltar não era o meu desejo mais espontâneo. Ele, que sempre quis o melhor para mim, mas que sofria, se limitou a cantar: “Tu que andas pelo mundo, tu que tanto já voou, tu que encanta os passarinhos, alivia a minha dor, tem pena d’eu”. E eu voltei. O tempo tomou seu rumo certeiro, mas sempre bem embalado por boa música.

Multiplicando em mim à música, à arte, à alegria de viver e todos os passos que me convencem que viver é bom demais, formaram- se novas famílias. Aquelas que meus irmãos criaram e é claro, a minha própria família. Kai e Mika tocam violão e guitarra. Ambos lêem muito. Mika é um profundo apreciador da arte, Kai canta. Os amigos se juntaram cada vez mais a primeira família, (e mais tarde seus filhos) formando uma constelação cada vez mais poderosa, no processo de composição do meu eu. Aprendi a ser , ouvindo, cantando (desafinadíssima), recitando, interpretando e escrevendo muito. Reconheci sempre com muita facilidade aqueles que seriam parte dos meus dias, mas nem sempre fui fácil na portaria da minha estória. Meu coração definitivamente tem lugares contados, aqui gosto de não perder à vista, de cuidar de quem me é caro, de participar de suas tristezas, mas, exponencialmente mais, de suas alegrias.

“Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.” (Oscar Wilde)













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