| Pano pra Manga - por Sandra Teschner |
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“Viajar! Perder paises!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente" (Fernando Pessoa)
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Conhecemos muitos lugares. Alguns de nós mais, outros menos, faz parte. Mas aqueles que têm o privilégio de desbravar o que há muito já é manso, ou seja, viajar pela grande “aldeia global”, sabem que progressivamente ignoramos alguns lugares que visitamos, é quase uma forma de protesto. No meu caso, bem em particular, apaixonam-me as diferenças. Quando tenho a sensação de que esse filme eu já vi, logo no início de uma película novinha em folha, perco o interesse por ele. Assim é no meu cinema da vida, assim assimilo minhas paixões por praças, cheiros, sabores, paisagens, culturas e por aí vai. Quando então escolho um lugar para falar dele, este fez a diferença. Membro de uma família eclética e numerosa em sua extensão nada sanguínea, vivo claramente como na “Excêntrica Família de Antonia” – filme holandês que, caso você não tenha passado por ele ainda, não deixe essa situação perdurar –, em que aquela que seria sua família by Law multiplica-se em amigos e com eles viram-se os dias e os anos, estando sempre ali na nossa estória, de Antonia ou da minha.
Férias são momentos complexos, há que se bater agendas de queridinhos que vão da Alemanha a Jaraguá do Sul, de Brasília a Atibaia, de Laos a Cabo Verde, do Quênia à Espanha. E eles mudam de cidades, Estados, países (alguns vivem em outros planetas) para que as nossas viagens aconteçam em conjunto, numa gostosa alternância de passageiros nas viagens dos dias. Sempre assim? Não, até que viajamos completamente sozinhos, mas não falta nessas situações um ou outro amigo para dizer:
“Eta, você está falsa hem, viajou e nem me chamou!” e todos dão risadas enquanto a amizade continua.
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É esperado que se empreenda um esforço pessoal significativo para conseguir administrar essa populosa e excêntrica família, fazendo jus a todos os gostos e affaires temporários também quando o tema é viagem. E foi num desses empreendimentos que decidimos por transitar pela Espanha, mais precisamente, conseguimos criar uma proposta de cidades que oferecessem história, bom humor, compras, tradições, museus, obras arquitetônicas, exotismo, pitadas de excentricidade, liberdade, calor (seco!), algo oriental que tenha um touche europeu e por aí vai a lista. Chegamos à Espanha. Em Madri, Rafa, Kity, (Monique ia também, mas estava em outro planeta, cancelando a viagem no último instante), Gabriel, Gabrielzinho e meu filho Kai fizeram os dias, mas sobre a capital espanhola já falei bastante este ano, então fica aqui repetidamente o registro da delícia de ter compartilhado com eles momentos madrileños em toda a sua graça. Confesso que tive o dissabor de ser roubada dentro de uma loja H&M, próximo a Goya e Serrano, ou seja, zona nobre da cidade, por duas senhoras bem aparentadas e em frente ao segurança de loja. Percebi tudo imediatamente, mas, moral da historia, lá se foi minha carteira e vieram todas as implicações e complicações que essas si tuações trazem consigo. Só uma coisa não mudou. Não deixei o incidente estragar aqueles momentos maravilhosos que são sempre únicos e cumpri a parte prática e burocrática que me cabia numa
situação como esta e depois tomei um belo banho, enfeitei- me toda e logo estava eu de volta às ruas para curtir o que nos é de direito: A vida como ela é. Granada era o nosso próximo destino. Rafa se despediu de nós. Com um carro alugado, descemos a auto-estrada em direção a Andaluzia num caminho quase triste e enfadonho, o que quase nos fez titubear quanto ao desejo exótico da mais oriental das cidades européias e onde a noite é só um dia sem a luz do Sol com sua monumental Alhambra. Um rico complexo de palácios e fortaleza, que, além da imponência e beleza que evoca, tem em seus interiores os verdadeiros atrativos com uma decoração culminante da arte islâmica, exibindo seus elementos mais famosos, juntamento com estruturas cristãs que datam do século XVI, além de intervenções posteriores em edifícios e jardins que marcam a sua imagem, tal como a conhecemos hoje. Cidade cheia de vida e história, onde a Espanha é mais muçulmana com casas de banho charmosas e souvenirs que confudem oriente e ocidente numa deliciosa harmonia. Bares, restaurantes com miradores para a principal atração turística da cidade são uma constante nesse lugar que definitivamente se deve visitar quando se está em busca de acrescentar um algo a mais aos sentidos, ou como diria Dio (Jaguarivel, colunista profashional), Granada pode ser acrescentada na lista das provas de amor que se dá na vida e deve estar contida numa tabela de Excel. Isso aí não me pergunte por que, leitor profashional! Ficamos hospedados no chamorsissimo Palácio de Santa Ines, com vista para a Alhambra mas – como em quase toda a parte em Granada – este é desprovido
de um caminho para se chegar de carro, o que para nós, com nossos milhões de malas, foi quase um golpe. Inclusive insistimos em tentar chegar motorizados a tal ponto que por pouco não ficamos presos entre as estreitas “calles” que dão na nossa hospedagem. Achamos que nossas trocas de inglês e portanhol com a recepção eram responsáveis por algum equívoco, quando de fato eram nossas pernas e braços que queriam nos confundir para não terem de entrar em ação. No fim tudo é estória e adoramos vivê-las. Aqui Mika, meu marido, se juntou a nós para meu puro deleite, enquanto parte da turma se despedia para tomar outros rumos. O Estreito de Gibraltar era o próximo lugar de consumo visual escolhido. Talvez pela sua importância estratégica representando o ponto final divisório entre a Europa e a África ou talvez por uma mera curiosidade, quase infantil, como se tivéssemos responsabilidade com nossas antigas aulas de geografia e história. E estando tão perto de lá seria quase uma falta castigável pelo professor não visitar. Bem, não contávamos com a imensa fila de carros que tivemos de enfrentar para entrar no Estreito, afinal estávamos abandonando a Espanha e entrando na Inglaterra, fazendo essa travessia por meio de um aeroporto que controla o trânsito com cancelas e semáforos (sei lá, Congonhas parecia fichinha...), bastante surreal. Mas, e ainda bem que essa palavrinha existe, nada daquilo estava movimentando minha emoção, confesso que estava ali para satisfazer a maioria masculina. Contrariando minha expectativa – que era nenhuma –, ao visitarmos o alto da montanha de onde se “acena” para a África, uma gruta, que poderia ser mais uma em minha vida, acabou por ser a grande atração do lugar. Ao chegar no seu interior, uma voz possante, numa altura estonteante, cantava em minha alma. A voz era de Pavarotti, hoje saudade (que eu tive oportunidade de ouvir na primeira fila do estádio de Munique nos tempos áureos dos três tenores), o que saía dela era a ária Nessun Dorma de Puccini (ópera Turandot) e tudo aquilo era um ensaio, pois há um teatro no coração da gruta.
Naquele momento entendi porque eu estava no Estreito de Gibraltar e agradeci a Kai e Mika pelo estímulo lançado que resultou nesse ponto alto. A viagem podia ter continuidade e fomos para Cáceres, na região de Extremadura (próximo a Portugal), e lá vivenciamos talvez a maior surpresa desse nosso trip. Escolhida para ser mera passagem, aproveitamos a estada e fomos ao centro do município para dar um passeio de reconhecimento local, quando nos deparamos com uma belíssima cidade antiga, bem estruturada, decorada com barzinhos e restaurantes charmosos e, além de tudo, fomos brindados com uma demonstração local contra as especulações em volta dos preços agrícolas e a representação dessa era um verdadeiro mosaico de pêssegos que cobria toda a praça. Não sei se alcançaram algo do que reinvidicavam, mas ganharam fãs inesperados. Acho que aqui fizemos as fotos que marcaram nossas férias. De lá, fomos para Sevilla e sobre Sevilla não se faz comentários en passant. É tão complexa e cheia de tudo que me recusei literalmente a vivê-la em sua plenitude. Decidi que fingiria não estar ali e assim voltaria outras vezes e teria de novo e de novo os prazeres da primeira vez. Cidade vibrante com terraços descolados, misturando-se às edificações históricas, um show de cores espanholas. A noite porém nos decepcionou, já que deixou a desejar em vida (e locais abertos mesmo), mas há tanto o que se ver que, quando eu resolver ter meu verdadeiro début nesse lugar, prometo revelar tudinho.
Salamanca esperava por mim. Aquela sim tinha sido minha cidade escolhida, aquele era o meu momento. Desejei Salamanca como se deseja um sorvete na vitrina quando se está de dieta. É tão acessível e mesmo assim algo lhe diz que não é hora de degustar; assim, apesar de ir regularmente a Madri, nunca tinha ultrapassado os limites da vitrina e ido em busca do meu sorvete na região de Castilla y León que fica somente a 212 km da capital espanhola.
Cidade de estudantes, abriga a universidade mais antiga da Espanha e uma das mais antigas da Europa, emparceirandose com outras como Sorbone ou Oxford. Chegar àquele lugar boêmio, onde a juventude se sobressai em meio a monumentos imponentes como as catedrais nova e velha, é algo delicioso. Corroboro com o ditado local: “Salamanca vive à noite e dorme pela manhã”. A alegria dos jovens estudantes dá o ritmo das ruas e dos muitos bares e discotecas. Festas nas ruas, casamentos com festejos exuberantes e exagerados, shows open air! Incrível a vida borbulhante alicontida, amei cada instante, suguei, curti. O que visitar? Bem isso você descobre num clique, mas diria que a Plaza Mayor é sem dúvida a mais convidativa que conheço e que quem ama arte poderá admirar os mais d i v e r s o s estilos num s ó l u g a r. Romano, gótico, renascentista, barroco, neoclássico, moderno. O museu casa Lis de Art Nouveau e Art Déco, cuja casa que acolhe as coleções já é um museu em si, é uma visita obrigatória. Gostamos também bastante do museu do automobilismo. Salamanca é porém um lugar para se deslumbrar com a vida noturna, para passear vendo os monumentos iluminados, ouvindo a música que teima em extrapolar os limites dados, para jantar bem, olhar o rio, entrar à noite no museu da farinha ou assistir a mais um casamento que parece fazer parte das horas, como se viver, casar e varar a madrugada fossem elementos do dia-adia. Aqui, a juventude é um tempo que simplesmente nem pára nem passa. Contrastes instigantes , paradoxos que adornam nossa fantasia.
De volta a Madri, novos encontros e velhas despedidas.
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