revista profashional

Pano pra Manga - por Sandra Teschner
 

A famosa máxima que diz:
o botão da contradição:
“Dessa vida nada se leva”
aciona em mim de imediato
Se leva, sim!

No mês passado, vivia eu um momento de tristeza e reclusão profunda durante a missa de um ano de partida de um grande amigo, quando o religioso em seu sermão me desconcentrou completamente ao ressaltar em alto e bom som que mesmo tendo sido alguém de muitas posses (o meu amigo) na vida terrena, ele nada levara para a vida eterna

 


 

 

Pausa para respirar. O que é levar? Entre diversos
significados, vamos aceitar por exemplo: conduzir algo de um lugar para outro; retirar, guiar, consumir, estender, fazer chegar. José, nome tão real que de fato assim se chamava o amigo em questão, foi um ser “levado” vida a fora. Lutou, quis, conquistou riquezas de diversas naturezas. Partiu pilotando seu brinquedo preferido, um bimotor, uma máquina, uma “coisa” da vida que é, porém, capaz de nos lembrar quem somos ou o que amamos. Adiante disso, se levar também é fazer chegar, ele chegou onde quer que a chegada seja, bem carregado de uma vida curtida e recheada também dos prazeres advindos da matéria.
Um boneco de pelúcia Wi l l y, s u a própria revista ou um avião, foram partes integrantes de sua história, vezes como coadjuvantes, outras até em papéis principais. A memória afetiva nasce do parentesco do nosso meio ambiente conosco. Temos de banir o preconceito que separa o bem e o mal da posse ou da falta dela. Não tenho intenção alguma de ir à s r a z õ e s hi s tór icas , religiosas ou de que ordem sejam para embasar minhas convicções, quero viver a espontaneidade de ser livre de travas e amarras para exercer a capacidade de ser naturalmente Eu.
Por que queremos bem a coisas? Pelo valor financeiro que elas representam ou o status que elas proporcionam? Não, aí não queremos bem, simplesmente queremos possuir. O fato, porém, de algo que te faz bem ter um valor físico também não é um empecilho necessário na decisão de ter uma relação afetiva com um objeto, e ele tem valores próprios, sejam, funcionais, estéticos, morais ou culturais, além de variações possíveis entre esses.

Vale a pena lembrar também que a intenção funcional de alguma coisa nem sempre é o motivo pelo qual alguém sente essa coisa, nem mesmo seu criador. Por exemplo: eu até compro sapatos que jamais usaria, até porque os conceitos ergonômicos e necessários para a sobrevivência do meu corpo não foram considerados por seus criadores, mas a estética deles os transforma em vaso de flores (no caso de algumas galochas) ou em objetos de decoração, cuja presença me lembra um algo que me faz bem, mas este algo não vive necessariamente em meus pés! Se o tema aqui fosse design, com certeza as variações, definições e os fundamentos tomariam dimensões de teses, mas permaneço fiel ao meu tema-chave que é afirmar a você que, sim, na vida e da vida carregamos no plano espiritual mais do que uma aura limpa, bondade, humildade, caridade e todos os advérbios e adjetivos existentes para aqueles que vivem “fazendo o bem” dentro dos preceitos que nossa sociedade assim entende.


A matéria é capaz de melhorar nossa qualidade de vida, de deixá-la mais bela, mais bacana. Sabemos disso tanto quanto sabemos da culpa que carregamos por vivermos num mundo tão cheio de diferenças sociais. Steve Jobs da Apple diz que “o design é a alma das criações humanas”, bela definição, até porque a alma já soa menos culpada, é absolvida naturalmente pela sua intangibilidade. A estética das coisas sem dúvida é um parâmetro para desejá-las, mas não é a única e talvez nem seja a principal variável a ser considerada. A renomada professora e designer Vera Damazio diz que: “Todos os objetos criados são uma extensão do que o nosso corpo não pode fazer”, se adicionamos a esta definição a estética desejada, significados de a t r ibu i - ções pessoa i s ma i s a me n s a g e m que os objetos têm para passar, veremos que a relação homem x matér ia é mui to mais profunda e emocional do que as definições de bem e mal são capazes de traduzir. “Quanto mais velhos ficamos, menos neutros ficam os objetos à nossa volta. A gente mede a maturidade de uma pessoa a partir da história das suas coisas” é uma citação também atribuída a Vera Damasio. Se eu considerar minha vida por esse prisma, nasci velha e madura, pois sempre soube valorar aquele dedalzinho que pertenceu à mãe da tia de alguém que me presenteava aquilo como sinal de grande apreço por mim.

O valor do nosso existir não se qualifica pelas nossas posses físicas como se estas fossem um dote a ser transportado entre vidas ou nos desse um passe para garantir lugar no Paraíso, mas também não estamos credenciados automaticamente pela vida se Pano aceitamos as razões impostas. Nao há garantia nem de passagem nem hospedagem alguma no além. É bom lembrar, lembrar não! D E V E M O S gritar aos quatro cantos que gente ainda é muito mais e todas as intervenções p o s s í v e i s com ela, todas as trocas de sentimentos líquidos o u s ó l idos entre prazeres carnais ou fundamentos de amizade sempre farão a grande diferença no que transportamos entre as etapas, mas também isso é LEVAR. Não vivemos em espaços vazios, as coisas que nos rodeiam têm importância, fazem parte da nossa biografia, de quem somos, do que apreciamos e do que comunicamos ao mundo. Assim é com as coisas que fazem parte do ambiente que você vive ou aquelas que carrega no corpo e que se manifestam aos outros como sendo moda ou estilo. Fato é que levar é também estender e no fundo é o que queremos, prolongar, estender, carregar e permanecer por este caminho sem que ele tenha um fim.


Com meu carinho que ele leva, essas palavras são dedicadas a um grande José.













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