revista profashional

Pano pra Manga - por Sandra Teschner
 

“Cada um de nós compõe a
sua história, e cada ser em
si, carrega o dom de ser
capaz, de ser feliz.”
(Almir Sater)


 

 

Dom. Dádiva, presente. Merecimento, mérito. Dote natural, talento, prenda, aptidão, habi l idade especial para. Bem que se goza. Bem espiritual. Significados não faltam à palavra que traduz uma graça que nos é concedida; de onde vem a concessão? Deixemos os fronts discutirem. O poder conferido nas mais diferentes esferas a alguns, aqueles que não descobrimos, reconhecemos na materialização da especialidade de sua conduta. Fala-se de dons em tantos contextos! O mistério da fé é considerado um dom. O artista prodígio, o músico que não aprendeu – veio ao mundo apreendido na música. Hoje assisti a um vídeo incomum para mim que de nada simpatizo com programas de auditório, americanos então, ainda um pouco menos. Mas foi em um American Idol, que me foi apresentado por meu irmão Gabriel, que vi um inseguro vendedor de celular, cujo termo autoconfiança é algo que só existe em sua vida em dicionários, afirmar no palco que ali está para cantar uma ária. Encantou, emocionou, virou um gigante no instrumento de seu dom, sua voz. No último final de semana, assisti relutante ao filme Leões e Cordeiros. Na verdade, tive de pesar na balança: assistir ou não? De um lado, minha clara antipatia pela interpretação de Tom Cruise versus vários pontos positivos para Meryl Streep e Robert Redford, e um subtema que me interessara no sumário do filme. Venceu a maioria e esta foi uma boa escolha. Meu interesse na película estava na história de um professor de Ciências Políticas idealista, interpretado pelo Redford, que, reconhecendo em um de seus pupilos um ‘dom’ especial, tentava mudar o curso da história dele.

De fato, a argumentação entre os dois personagens veio a ser para mim o ponto alto do filme. A certa altura do diálogo, o jovem põe em cheque as teorias do professor, inclusive em relação ao que este enxergara nele, alegando que aquele que não sabe fazer, ensina.

Dentro desse pensamento, vai adiante quest ionando então o que ele (o professor) teria feito da vida e se seria então seu dom, convencer alunos promissores a seguir carreira. É aí que o personagem de Redford responde algo como: “Não, meu dom (gift, em inglês, que está mais para dádiva) é RECONHECER pessoas como você”. O resto do f i lme gi ra em torno de um senador interpretado por Cruise que pretende lançar sua nova “estratégia completa” para a guerra dos Estados Unidos no Afeganistão e, para divulgá-la, precisa convencer a jornalista, vivida por Meryl Streep, que em outro momento foi conivente com a política do então senador. Ao mesmo tempo, dois jovens estudantes batalhadores e idealistas da antiga escola, um deles de origem hispânica e o outro de origem afro-americana, se alistam para lutar nas montanhas geladas do Afeganistão. Realidades paralelas de um país em conflito com sua história. Creio que em algum momento de nossas vidas nos perguntamos qual é o nosso dom? O que nos é genuíno a tal ponto que sentimos o sabor do poder demandado dele ou nos comprazemos com o efeito que ele nos causa? Não que em cada um de nós viva um pianista esperando o instrumento, ou o tenor esperando a chance de abrir sua voz. Mas qual das nossas bagagens não somamos, estão no nosso DNA? É parte que não se carrega, se tem mesclado, entranhado naquilo que nos dá a convicta certeza de ser um você mais completo e nenhum outro, que não você! Identifiquei-me com o professor que reconhece! Tenho
essa capacidade intrínseca de reconhecer pessoas, coisas, cheiros, momentos que terão um significado maior, é como se algum dispositivo interno acionasse em completa independência de meus sentidos, mostrando-me o que não preciso de explicações. Muito pelo contrário, faço milhões de vezes o exercício inverso. Primeiro sei que alguém ou alguma coisa é “the one” e depois vou atrás dos argumentos que embasam aquilo que em palavras traduzimos algumas vezes de maneira correta outras menos, como sendo um feeling.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE RECONHECIA O DOM AMOROSO COM A SONORIDADE DAS PALAVRAS EU TE AMO:

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão, amor
saltando da língua nacional, amor
feito som
vibração espacial.

De todas as formas um dom é um presente e como tal deve ser tratado, usado, respeitado. Mais importante ainda é o esforço por todas as conquistas que não estão associadas ao que nos vem de bônus: “Bom caráter é para ser mais enaltecido do que talento extraordinário. A maioria dos talentos é de certa forma um dom. Bom caráter, em contraste, não nos é dado. Temos que construí-lo peça por peça... por pensamentos, escolhas, coragem, e determinação.” (John Luther)

Leitor profashional, “se pense”, liberte seus dons, faça-os produzir por você, por seus sonhos, pela pessoa que você pode ser. Entregue-se a você. Tudo o mais que nos faz gente e não vem no pacote da maternidade é obrigação sua correr atrás, fazer escolhas. Tudo sempre rodeado de mundo, gente, sorriso, amor. “Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, e ir tocando em frente. Um dia a gente chega, no outro vai embora” (Almir Sater). Reconheça o que você tem e faça seu tempo valer a vida.













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