Nesta edição, a Profashional decidiu homenagear a arte da fotografia com um especial muito mais do que especial. Nas próximas páginas, entregue-se ao olhar: veja, sinta, sonhe, explore.
E descubra o valor imensurável de uma imagem.
A partir de uma fotografia, temos a reconstrução de um momento que nunca mais será igual.
De um mesmo ponto de vista, podem surgir interpretações diversas e inversas. Fotografar é uma arte, um dom, um impulso, uma necessidade, o registro da memória, o pensamento reconstruído.
A partir de um único clique, transforma-se o “agora” em “para sempre”. Ou quase.
No livro “Câmara Clara”, Roland Barthes (escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês) defende a idéia de que a fotografia transforma o tempo em espaço e o espaço
em tempo. Para ele, essa arte proporciona um “isto será” e um “isto foi”, em uma
única e mesma representação.
Sem dúvida, a fotografia proporciona uma viagem única. Por meio de uma linguagem própria, ela explica ou ressalta determinada imagem. Mas, para isso não basta ver, é preciso sentir, ir além, desvendar, descobrir. Esse é o convite que fazemos a você, caro leitor. Nas próximas páginas, conheça o trabalho e
a história de alguns profissionais da área. E entregue-se, sem medo,
a essa fascinante aventura do olhar. Veja com o coração, sinta com os olhos, tire
as
próprias conclusões e faça uma viagem única.

| especial fotografia (opinião) |
por Ana Letícia Amaral, artista plástica com especialização em fotografia |

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Uma modelo longilínea entre dois imensos elefantes. Olhando essa fotografia de Richard Avedon, o que nos vem à mente: arte ou moda?
Com a introdução das técnicas mais avançadas de reprodução, a fotografia cruzou uma importante barreira: de forma quase imperceptível, ocorreu a fusão entre“fotografia artística” e “fotografia comercial”, e, desse encontro, resultou uma das tendências atuais mais populares: a fotografia de moda.
No entanto, em
meados do século XX, o espírito idealista dos “artistas” rejeitou o vanguardismo e o elitismo relacionados à fotografia comercial, considerando fotografia de
moda uma arte menor.
Durante os anos em que foi editor de fotografia da “Vogue” e “Vanity Fair”, um dos pioneiros na prática, Edward Steichen (1879- 1973) foi responsável por uma
revolução de técnicas e estilos usados até hoje em fotografia de moda – uma delas, e provavelmente a mais importante –, a iluminação artificial feita por
lâmpadas incandescentes. Essa nova forma de projetar imagens e sua maneira de incorporar classe e romantismo às imagens dava ênfase, ou até mesmo criava, a
ilusão de glamour a qualquer pessoa ou objeto em frente às suas lentes. Essa abordagem focada em novas técnicas, na estética e moda, e justaposição de
celebridades, sets projetados e arquitetura das grandes metrópoles, provou ser uma fórmula de sucesso.
Com seu vanguardismo, o alemão Horst P. Horst (1906-1999) especializou-se em tais estratégias e muitas de suas imagens de moda são hoje consideradas
verdadeiras obras de arte. O anúncio de corsettes feito em Paris, em 1939, no qual uma mulher de rosto desconhecido retrata o contraste entre sensualidade,
repressão e desconforto, é um claro exemplo: apenas usando a iluminação para enfatizar formas, ele alcançou o dramatismo pretendido.
Outro personagem importante na história da fotografia de moda foi Irving Penn (1917- ), que durante décadas fotografou para “Vogue”, e ao contrário de alguns
de seus antecessores, ele acreditava em iluminação simples, sets minimalistas e em composições simples e fragmentadas.
A partir da década de 50, fotógrafos desenvolveram estilos próprios que se tornaram marcas registradas. Muitos deles tiveram seus trabalhos publicados por
gigantes do mundo da moda, como “Harper’s Bazaar”, “Vogue” e “Vanity Fair”. Assim como artistas, fotógrafos de moda trabalhavam individualmente durante
todo o processo de criação e execução de seus trabalhos, até que surgiu Richard Avedon (1923-2004 ), introduzindo o conceito de uma equipe trabalhando
em conjunto nas produções. Isso influenciou de forma marcante todos os grandes fotógrafos que conhecemos hoje em dia, nomes como Helmut Newton, Annie
Liebowitz, Mario Testino, Mario Sorrenti e Mark Seliger, entres inúmeros outros talentos que são também referências mundiais.
A visão única de cada fotógrafo, os temas controversos, as inovações tecnológicas e o mercado de luxo têm moldado a fotografia de moda contemporânea. A linha
que dividia “fotografia arte” e “fotografia comercial” deixou de existir, transformando fotografia de moda em um dos canais mais abertos para manifestação de
criatividade e expressão artística dos profissionais, marcando geraçõese suas tendências. |
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| Instante presente - por Julia Moraes, assistente de moda da editora Profashional |

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Sempre acreditei que o olhar é a garantia para uma boa fotografia. Para fotógrafos experientes, acredito que essa afirmação pode soar com certa dose de
ingenuidade, porém, penso que a construção de um bom trabalho se dê a partir dessa observação crônica.
Pessoas, objetos, cenários paradisíacos ou urbanos, lugares por onde transitamos freqüentemente, são boas escolas para se exercitar o olhar. Além de
condicionar a retina para uma busca apurada, de modo a não perder aquele detalhe, que certamente, em outro momento, passaria despercebido.
Acho importante antes do clique se dispor a esta vivência, só assim se consegue traduzir a freqüência exata que a imagem veio propor, independentedo objeto
fotografado.
Constantemente, utilizo a seguinte frase: “Só se fotografa bem, aquilo que se ama”. E carrego esse conceito comigo por vários motivos, o principal deles, é
que a sinceridade de gestos, quando bem enquadrada, torna-se eterna e atemporal.
Todas as fotos que me roubam a atenção, e que me fazem parar por instantes, são justamente imagens que intuitivamente foram feitas com esse valioso
ingrediente.
Esses registros que retratam a vida, seja ela estática ou num movimento frenético, continuam a repercutir quando é a tradução do íntimo, e quando o fotógrafo
assume o papel de cronista social. Escreve, sem palavras, e faz-se entender ou ser interpretado de maneiras diversas, retratando o momento que eterniza.
Centenas de vezes deparei-me com situações em que uma máquina fotográfica seria imprescindível, em que personalidades deste grande teatro do cotidiano
mereciam ser clicadas. Momentos aprazíveis, repletos de delicadeza e caos.
O meu interesse sempre foi o ser humano, suas articulações, plástica, resistência e fragilidade. Acredito que somos como dobraduras, moldando-nos sempre e
construindo a arquitetura gráfica que é a nossa história.
A entrega ou a negação dela é que constrói a tônica de uma imagem expressiva. Tudo que se fotografa ou se deixa fotografar com ausência de receio, cresce
como num prisma grandioso e multifacetado.
Nessa arena de imagens, o que vale é o instinto, a rapidez de jogar, o repertório do acréscimo. Fotografar é arte da tentativa, do acúmulo, do sincronismo, e
do instante. Comparo-a à literatura!
Apaixono-me com freqüência por essa arte, e os segundos memoráveis que por algum motivo não foram clicados, como um senhor sentado com um buquê de rosas
murchas, numa parada de metrô qualquer, permanecem imutáveis em meu interior para uma próxima partida.
Abro esse obturador generoso que é a velocidade dos fatos, sem receio de abdicar de alguns registros, na certeza de que a melhor foto ainda está por vir. |
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